(Foto: Tania Rego)
Brasil vive escalada silenciosa com 84 mil desaparecidos em um ano; casos envolvendo crianças disparam 8%
Média é de 232 sumiços por dia. Especialistas alertam para falhas na integração de dados entre estados e preconceito institucional. Em Curitiba, pai relata o drama de três dias de buscas pelo filho de 10 anos.
O Brasil registrou um cenário alarmante em 2025: foram 84.760 casos de desaparecimento de pessoas, o que equivale a uma média de 232 sumiços diários. O número representa um aumento de 4,1% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 81.406 ocorrências.
Os dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) indicam que, mesmo com a criação da Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas em 2019, o país enfrenta dificuldades para conter a escalada do problema.
Desde 2015, o total de desaparecidos só recuou durante o auge da pandemia (2020 e 2021), movimento que especialistas atribuem às restrições de circulação e à dificuldade de acesso às delegacias, o que gerou subnotificação na época. Agora, os números voltam a subir consistentemente.
Apesar do aumento nos casos, o total de pessoas localizadas também cresceu. Em 2025, 56.688 pessoas dadas como desaparecidas foram reencontradas — uma alta de 51% em comparação ao início da década. Para Simone Rodrigues, coordenadora do Observatório de Desaparecimento de Pessoas no Brasil (ObDes) da UnB, isso reflete tanto o aumento das ocorrências quanto um leve aprimoramento nas ferramentas de busca.
“Tenho visto um maior empenho, principalmente nos últimos dois anos, em promover a interoperabilidade dos dados e a comunicação entre as instituições”, avalia a especialista.
Crianças e Adolescentes: A face mais cruel do problema
O recorte mais preocupante das estatísticas envolve o público infantojuvenil. Três em cada dez desaparecidos no Brasil em 2025 tinham menos de 18 anos. Foram 23.919 casos envolvendo crianças e adolescentes — um salto de 8% em relação ao ano anterior. Esse crescimento é o dobro do registrado na média geral da população.
Outro dado chama a atenção para a vulnerabilidade de gênero: enquanto homens representam a maioria dos desaparecidos no geral (64%), entre crianças e adolescentes a lógica se inverte, com as meninas representando 62% das ocorrências.
O Drama em Curitiba: “Uma agonia que só quem passa sabe”
Por trás dos números frios, existem famílias em desespero. Foi o caso do pintor Leandro Barboza, morador de Curitiba. Seu filho, I.S.B., de apenas 10 anos, desapareceu no dia 27 de dezembro de 2025. O menino saiu para brincar, se afastou de casa e, com medo de levar uma bronca por ter ficado na rua até tarde, não voltou.
Foram três dias de angústia até que um idoso localizou a criança e acionou a polícia. Leandro relata o pesadelo vivido nas ruas da capital paranaense.
“É uma agonia que só quem passa dá conta de dizer. Eu pensava o pior: que alguém tinha raptado meu filho; que tinham matado ele; que eu nunca mais ia vê-lo. Na primeira noite, procurei até o corpo não aguentar mais”, desabafou o pai.
Além do medo, a família enfrentou o julgamento social. Leandro conta que, mesmo se desdobrando entre o trabalho e os cuidados com os filhos (um deles autista), foi alvo de críticas. “Até na delegacia, um policial me disse que eu e minha esposa poderíamos ser responsabilizados pelo sumiço. Sendo que eu estava ali fazendo a ocorrência, pedindo ajuda para encontrá-lo depois de um dia inteiro trabalhando e o procurando”, lamentou.
Tipos de Desaparecimento e Preconceito
Para Simone Rodrigues, é crucial entender que nem todo desaparecimento é igual. Ela trabalha com o conceito de “desaparecimento estratégico”, referindo-se a pessoas que somem para sobreviver, como mulheres fugindo de maridos abusivos ou crianças vítimas de maus-tratos.
“Muitas dessas crianças e adolescentes estão fugindo de contextos de violência intrafamiliar. Nestes casos, os agentes do Estado precisam ter a sensibilidade de não voltar a expô-las a esse contexto”, explica.
Ela critica ainda o “preconceito institucional” e os mitos que atrapalham as buscas, como a ideia errada de que é preciso esperar 24 horas para registrar um B.O., ou estereótipos de que adolescentes fogem apenas para “namorar ou ir a bailes”.
Uma Política Nacional fragmentada
A Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, criada há quase sete anos, ainda engatinha. O Cadastro Nacional, considerado o coração do projeto, tem baixa adesão: apenas 12 das 27 unidades da federação estão integradas ao sistema.
“Ainda é tudo muito fragmentado. Não temos uma carteira de identidade nacional unificada e as delegacias não conversam entre si. Quando se localiza um corpo, é preciso enviar as digitais para os 27 estados para saber quem é”, critica Simone.
O Ministério da Justiça reconheceu a subnotificação e afirmou que classificar as causas dos desaparecimentos é um “desafio estatístico”. A pasta promete integrar os demais estados ao Cadastro Nacional ainda no primeiro semestre de 2026 e reforçar a coleta de DNA de familiares.

Com informações de Agência Brasil
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