(Foto: Canva)
Campanhas violam regras e usam inteligência artificial para enganar eleitor
Levantamento identifica dezenas de deepfakes em contas oficiais de políticos; tecnologia busca frear abusos na Internet.
O eleitor do Paraná que acompanha as disputas políticas pelo celular está exposto a uma enxurrada de vídeos manipulados. Campanhas eleitorais estão ignorando a legislação vigente e publicando conteúdos gerados por inteligência artificial (IA) sem qualquer aviso prévio aos cidadãos. Um mapeamento feito pelo Observatório Lupa flagrou pelo menos 37 publicações desse tipo rodando diretamente nas contas oficiais de candidatos e partidos políticos.
A ausência de transparência fere as normas estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em março deste ano. A corte exige um selo claro de identificação sempre que uma imagem ou voz passar por alteração sintética. A prática de ocultar o uso da tecnologia impede que o eleitor faça uma escolha consciente na hora do voto.
A dimensão da fraude nas redes sociais
Pesquisadores coletaram 314 postagens suspeitas em plataformas e aplicativos de mensagem. A análise confirmou a presença de IA em 282 delas, comprovando a escala industrial da desinformação nas campanhas. O formato mais utilizado pelos fraudadores é o deepfake, uma técnica avançada que clona o rosto e o timbre vocal de pessoas reais para criar falsas declarações.
A rede Facebook concentrou o maior número de infrações, somando 202 ocorrências de conteúdo enganoso durante o período analisado. O Instagram apareceu logo na sequência, acumulando 62 publicações irregulares. O atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva figurou como o principal alvo dos ataques virtuais, contabilizando 115 menções falsas. O senador Flávio Bolsonaro registrou 56 ocorrências similares.
“O que chama atenção nesses 37 casos é que não são conteúdos publicados por contas anônimas. São publicações feitas pelas contas oficiais de candidatos e partidos, que têm a obrigação de informar ao eleitor quando utilizam inteligência artificial.”
O alerta de Cristina Tardáguila, fundadora da Agência Lupa, evidencia o descumprimento intencional das regras por parte dos próprios postulantes a cargos públicos.
Tribunais fecham o cerco contra plataformas
A Justiça Eleitoral mantém o entendimento de que as empresas de tecnologia carregam responsabilidade direta sobre a propagação de mentiras. Os provedores de internet respondem judicialmente caso recusem a remoção de perfis falsos e postagens criminosas. Nos estados, o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) e as demais cortes regionais aplicam essas diretrizes para garantir a lisura dos pleitos.
Diante do avanço veloz das fraudes, as autoridades buscam novos métodos de contenção. O TSE formalizou uma parceria com o Google para implementar um sistema de rastreamento de imagens dentro do YouTube. A ferramenta, batizada de Detecção por Semelhanças (Likeness ID), avisa os candidatos sempre que um vídeo tentar reproduzir seus rostos sem autorização prévia.
Como funciona o monitoramento visual
O político interessado em proteger sua imagem precisa acessar a área de detecção do YouTube Studio. O sistema exige a confirmação de identidade por meio do envio de um documento oficial válido. O usuário também grava uma foto e um vídeo curto para que a plataforma registre a sua biometria facial com precisão.
O Google leva cerca de dois dias para processar o cadastro completo. Após a aprovação, o algoritmo passa a escanear a base de vídeos e dispara notificações automáticas ao detectar qualquer similaridade com o rosto do candidato. A equipe de campanha avalia o material denunciado e aciona o pedido de remoção imediata, caso confirme o uso indevido da imagem.
Esforço conjunto tenta preservar pleitos
O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, destacou que o mecanismo amplia a defesa da honra dos envolvidos no processo eleitoral. O magistrado apontou a união entre o setor público e a iniciativa privada como uma barreira necessária contra o potencial destrutivo da inteligência artificial generativa. Ele sustenta que proteger o ambiente digital garante a liberdade de escolha do cidadão na cabine de votação.
Na mesma linha, o presidente do Google Brasil, Fábio Coelho, garantiu que a empresa avalia e remove os conteúdos ilícitos com base nas rigorosas políticas de privacidade da plataforma. O executivo reforçou a urgência da ferramenta para as mulheres que disputam cargos públicos, visto que elas lideram as estatísticas como as maiores vítimas de ataques e difamação durante os períodos eleitorais no país.
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Com informações de Agência Brasil
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