(Foto: Divulgação SESP-PR)
Gaeco afasta 42 policiais no Paraná por propina com Pix e Wi-Fi
Investigações do Ministério Público revelam esquema que liberava motoristas embriagados e fraudava acidentes em rodovias estaduais
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) afastou 42 agentes da Polícia Militar do Paraná (PMPR), a maioria vinculada ao Batalhão de Polícia Rodoviária (BPRv), por suspeita de operarem um esquema de extorsão e propina nas rodovias estaduais.
As apurações flagraram práticas extremas, como a oferta de sinal de internet do próprio posto policial para que os motoristas realizassem transferências bancárias. Pelo menos 50 militares são investigados nas operações batizadas de Via Pix e Rota 466.
Na prática, o esquema transformou a fiscalização das estradas paranaenses em um balcão de negócios que colocou a vida dos viajantes em risco direto. Motoristas que concordavam com o pagamento transitavam livremente, sem autuações por excesso de velocidade, documentação irregular ou embriaguez ao volante.
O acobertamento dessas infrações graves compromete a segurança viária de milhares de famílias e trabalhadores que utilizam diariamente os eixos rodoviários para deslocamento intermunicipal. A omissão deliberada do Estado, nestes casos, potencializa o risco de acidentes fatais em trechos de serra e pistas simples.
A audácia da rede de corrupção envolvia facilitar ao máximo o repasse do dinheiro ilícito. Quando os condutores parados nas blitze alegavam não possuir dinheiro em espécie, os policiais prontamente apresentavam um QR Code. Se o trecho da rodovia não tivesse cobertura de telefonia celular, os agentes roteavam a conexão Wi-Fi da própria viatura ou do destacamento para garantir a efetivação imediata do Pix.
Interceptações telefônicas revelaram o nível de proteção garantido aos motoristas pagadores. Em um dos diálogos capturados, um condutor avisa o agente que pretendia ingerir bebida alcoólica antes de pegar a estrada e questiona quem estaria no posto de fiscalização. O militar confirma que ele próprio estaria de plantão e assegura a liberação:
“Pode ficar sossegado.”
Operações simultâneas atingem oito cidades do interior
A rodovia PR-466, que batizou uma das frentes de investigação, funciona como um dos principais corredores logísticos e corta o interior conectando Guarapuava a Pitanga. Este trajeto concentra um fluxo contínuo de caminhões pesados carregados com a produção do agronegócio da região central do estado.
A escolha de postos de bloqueio nesses gargalos rodoviários demonstra como a quadrilha mapeava pontos estratégicos para maximizar a arrecadação. A vulnerabilidade dos caminhoneiros, que dependem do cronograma de entregas e enfrentam estradas muitas vezes isoladas, alimentava a engrenagem das extorsões.
As ações do Ministério Público do Paraná miraram bases da PRE localizadas nas regiões dos Campos Gerais e no centro do estado. Apenas na terceira fase da ofensiva Rota 466, mandados de busca e apreensão foram cumpridos contra 15 militares e quatro civis. As ordens judiciais abrangeram endereços nas cidades de Guarapuava, Ponta Grossa, Telêmaco Borba, Pitanga, Bituruna, Castro, Palmeira e Wenceslau Braz.
Durante os cumprimentos nesta semana, as equipes recolheram armas da corporação, armamentos particulares, celulares e documentos. Uma pessoa acabou presa em flagrante por posse irregular de arma de fogo. Os agentes afastados perderam o direito de exercer o policiamento ostensivo e atuarão exclusivamente em funções administrativas até a conclusão do inquérito.
Ramificações logísticas e lavagem de dinheiro
A análise dos materiais eletrônicos apreendidos nas primeiras fases demonstrou que a rede criminosa estruturou um modelo de negócios permanente com transportadoras. As irregularidades operacionais mapeadas incluem:
- Acordos financeiros fixos com empresas de transporte de cargas em troca de isenção total de fiscalização nas balanças;
- Fornecimento contínuo de combustível por essas empresas para abastecer viaturas e carros particulares dos policiais;
- Direcionamento do acionamento de guinchos nas rodovias para empresas parceiras, mediante comissionamento por serviço prestado.
O grupo também desenvolveu mecanismos próprios para lavar o dinheiro arrecadado no asfalto. A ocultação dos valores ocorria por meio da pulverização de transferências eletrônicas para contas bancárias de familiares dos agentes públicos. As próprias empresas de guincho e transporte atuavam como intermediárias nas movimentações financeiras para tentar despistar o rastreamento dos órgãos de controle.
Adulteração de dados e resposta do comando
Para disfarçar as vantagens indevidas, os suspeitos fraudavam a classificação de avarias em veículos por meio da manipulação do Boletim de Acidente de Trânsito Eletrônico Unificado (Bateu). Essa adulteração documental facilitava golpes e dificultava a compreensão real do mapa de acidentes nas rodovias do estado.
A Corregedoria da PMPR confirmou que participa da execução dos mandados em conjunto com o Gaeco. A corporação publicou nota afirmando o compromisso com a legalidade e cobrando a identificação e punição das condutas indevidas de seus integrantes.
O Ministério Público esclareceu que oito dos 50 investigados seguem trabalhando nas ruas porque o afastamento total foi considerado uma medida desproporcional neste momento processual, decisão que pode ser reavaliada com o surgimento de novos indícios e quebras de sigilo.
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