(Foto: Evaristo Sá / Valdir Amaral)
Corrida pelo Palácio Iguaçu: Moro lidera pesquisas, mas enfrenta isolamento político e força da máquina do PSD
Cenário para 2026 se complexifica: enquanto senador busca viabilidade partidária, máquina do governo tem Curi e Guto Silva disputando protagonismo; Requião Filho consolida oposição e Paulo Martins mira o voto conservador.
A largada para as Eleições 2026 foi dada e o tabuleiro político do Paraná vive um momento de tensão e articulação intensa. Com o governador Ratinho Junior (PSD) encerrando seu segundo mandato e liderando as intenções de voto para o Senado, a disputa pela sua sucessão no Palácio Iguaçu expõe um cenário de contrastes: de um lado, a popularidade do nome de Sergio Moro; do outro, a máquina partidária esmagadora do PSD com múltiplos nomes; e correndo em faixa própria, a oposição ganha corpo com um nome tradicional.
Os bastidores de janeiro mostram que ter a preferência do eleitorado nas pesquisas pode não ser suficiente se não houver estrutura partidária para sustentar a campanha.
O paradoxo de Sergio Moro: líder nas pesquisas, mas sem “exército”
O senador Sergio Moro (União Brasil) vive um momento paradoxal. Segundo levantamento recente do instituto Neokemp, ele lidera os cenários para o Governo do Paraná, impulsionado pelo forte recall de seu nome e pela imagem de combate à corrupção. No entanto, a realidade política impõe barreiras severas.
Moro enfrenta dificuldades dentro do próprio partido, o União Brasil, que possui alas resistentes à sua candidatura majoritária. Além disso, o senador sofre com um isolamento estratégico. Diferente de seus adversários, ele não dispõe de uma base sólida de prefeitos no interior, o que dificulta a capilaridade da campanha em um estado com 399 municípios.
Outro ponto crítico é a rejeição cruzada. Moro caminha em um “campo minado”: é rejeitado pela esquerda devido ao legado da Lava Jato e enfrenta a desconfiança de uma parcela significativa do eleitorado bolsonarista raiz, que ainda o vê com ressalvas após o rompimento com o ex-presidente em 2020.
Para tentar contornar a falta de grupo político, articulações de bastidores indicam que Moro estaria disposto a negociar sua vaga ao Senado (ou apoio a ela) para atrair grupos políticos tradicionais, como o do deputado Ricardo Barros (PP), em um movimento pragmático que pode gerar desgaste junto ao seu eleitorado lavajatista original.
Requião Filho: a força da oposição com 28,8%
Quem aparece com força surpreendente para desafiar a hegemonia do grupo atual é o deputado estadual Requião Filho (PDT). Única voz contundente de oposição na Assembleia Legislativa nos últimos anos, ele herda o capital político do pai, Roberto Requião, mas construiu uma identidade própria baseada na fiscalização rigorosa do Executivo.
Dados de bastidores indicam que Requião Filho alcança 28,8% do eleitorado. Esse número reflete a insatisfação de parte dos paranaenses com o atual modelo de gestão e, principalmente, a fidelidade do eleitorado progressista e de áreas onde o “requianismo” ainda é forte. Ele se posiciona como o único candidato capaz de polarizar verdadeiramente contra a direita dividida, garantindo, no mínimo, um lugar garantido em um eventual segundo turno.
A muralha do PSD: Curi e a força dos 191 prefeitos
Enquanto Moro luta para montar seu time, o PSD (Partido Social Democrático) exibe músculos. A sigla se consolidou como a maior força política do estado, elegendo e filiando 191 prefeitos, além de centenas de vereadores. É essa “máquina” que impulsiona o nome do deputado estadual Alexandre Curi.
Em declarações recentes, Curi afirmou que deseja dar “continuidade a essa gestão”, posicionando-se como o herdeiro natural do legado de Ratinho Junior. Curi é o candidato da estrutura, conhecido pela habilidade de articulação e pelo trânsito livre entre situação e oposição na Assembleia Legislativa. Seu desafio, porém, é transformar o apoio da classe política em votos populares, já que seu nome é menos conhecido do grande público do que o do ex-juiz.
O dilema de Rafael Greca e a rejeição no interior
Correndo por fora — ou disputando espaço dentro do próprio ninho do PSD — está o ex-prefeito de Curitiba, Rafael Greca. Embora tenha deixado a prefeitura da capital com altos índices de aprovação e uma gestão marcada por obras visíveis, Greca enfrenta um desafio histórico: a rejeição do interior.
Historicamente, o eleitorado do interior do Paraná tende a ser bairrista e desconfiado de políticos excessivamente ligados à capital. O estilo de Greca, muitas vezes visto como elitista ou “curitibano demais” por lideranças do interior, pode dificultar sua penetração nas regiões Oeste, Sudoeste e Norte do estado.
Além disso, Greca precisa convencer o próprio partido de que tem fôlego físico e político para uma campanha estadual desgastante, disputando a indicação contra a força articulada de Alexandre Curi.
Guto Silva: o perfil técnico e a chave do cofre
Dentro do PSD, Alexandre Curi não corre sozinho. O atual secretário estadual das Cidades, Guto Silva (PSD), é um nome forte na mesa. Diferente de Curi, focado na articulação legislativa, Guto tem o perfil de “tocador de obras”. Como secretário, ele é o responsável pela liberação de recursos para pavimentação e infraestrutura nos municípios, o que lhe garante proximidade e gratidão de centenas de prefeitos.
Guto aposta no perfil de gestor jovem e moderno, uma “terceira via interna” caso Curi não deslanche nas pesquisas populares ou caso Rafael Greca não consiga viabilidade. Sua estratégia é colar sua imagem às entregas físicas do governo Ratinho Jr. em todo o interior.
Paulo Martins e o fator Novo
Para complicar a vida de Sergio Moro na disputa pelos votos da direita conservadora, surge o nome de Paulo Martins, disputando pelo partido Novo. Martins, que quase venceu Moro na disputa ao Senado em 2022, conta com o apoio da ala mais ideológica do bolsonarismo e de liberais econômicos.
Sua candidatura pelo Novo representa uma ameaça direta a Moro, pois divide o voto antipetista e conservador. Martins se apresenta como a opção da “direita pura”, sem as contradições que Moro carrega por ter rompido e depois se reaproximado do bolsonarismo. Sua presença no debate pode forçar Moro a radicalizar o discurso, afastando o eleitor de centro.
Ratinho Jr. e Alvaro Dias: a briga pelo Senado
Enquanto a disputa pelo governo pega fogo, a corrida pelo Senado parece mais definida, mas não menos importante. As pesquisas indicam Ratinho Junior e o veterano Alvaro Dias nas primeiras colocações.
A movimentação de Ratinho é a chave do processo. Sua saída do governo para disputar o Senado (obrigatória pela lei eleitoral) vai desencadear a reforma do secretariado e definir quem terá a caneta na mão durante a campanha. O apoio explícito de Ratinho é o ativo mais valioso da eleição, e, por enquanto, a balança pende para a estrutura que ele mesmo ajudou a montar no PSD, deixando Moro com o desafio de convencer o eleitor a votar contra a máquina do estado.

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