(Foto: Rafael Bloom)
Nascido no Paraná, Circo Zanchettini lidera conquista histórica para artistas itinerantes
Após um processo que durou quase 20 anos, o Iphan reconheceu a importância histórica dos picadeiros itinerantes. A conquista foi liderada pela família Zanchettini, que mantém o legado vivo pelas estradas do Paraná e do Brasil.
O picadeiro, a lona, a lantejoula e o riso agora são, oficialmente, bens protegidos pelo Estado brasileiro. O Circo de Tradição Familiar foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil. A decisão coroa uma luta histórica de artistas nômades que dedicam a vida a levar alegria para os rincões do país, e tem raízes profundas fincadas no Paraná, sob a liderança da família Zanchettini.
Para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), essa manifestação cultural vai muito além do espetáculo. Ela é definida por sua natureza itinerante, organizada em torno de núcleos familiares que transmitem oralmente saberes, técnicas, modos de fazer e formas de convivência entre gerações.
Um marco histórico no Palácio Gustavo Capanema
A decisão foi cravada de forma unânime pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural em uma reunião realizada no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, no último dia 11 de março de 2026. Com o parecer favorável, a manifestação circense passa a constar oficialmente no Livro de Registro das Formas de Expressão.
Entidades que apoiam os artistas itinerantes, como a Pastoral dos Nômades do Brasil, celebraram a titulação como um passo decisivo. Para a pastoral, a decisão valida o circo não apenas como entretenimento, mas como a casa, o trabalho e a resistência de milhares de brasileiros que dependem da estrada para sobreviver.
A semente plantada no Paraná pelo Circo Zanchettini
A chancela do Iphan está intimamente ligada à persistência do Circo Zanchettini, fundado oficialmente com esse nome no Paraná em 1991, mas cuja história remonta a décadas anteriores. A companhia, que atua fortemente no Sul do país com temporadas recentes de sucesso em Curitiba (no Parque Barigui e no Pinheirinho) e em Ponta Grossa, foi a grande precursora do pedido de reconhecimento.
O requerimento oficial que culminou no título desta semana foi protocolado no Iphan em 2005 pela matriarca Wanda Cabral Zanchettin. Ela mobilizou dezenas de famílias circenses, pesquisadores e instituições públicas pelo país afora.
O legado cigano e o nascimento do circo familiar
A paixão de Wanda pelo picadeiro começou na adversidade. Em 1930, após o assassinato do marido por motivações políticas, a mãe de Wanda, Célia Cabral Salgueiro, buscou refúgio com os filhos pequenos no Circo Irmãos Bocute e, logo depois, no Circo Irmãos Marques, de tradição cigana.
Foram os ciganos que ensinaram à família toda a técnica circense, a música, a dança e o idioma próprio da itinerância. Wanda estreou no picadeiro aos seis anos de idade, tornando-se uma exímia trapezista e acrobata. Mais tarde, aos 18 anos, ela conheceu o italiano Primo Júlio Zanchettin. Os dois se casaram e, em 1964, fundaram o Circo Teatro Gávea, que mais tarde seria rebatizado de Zanchettini em homenagem a Júlio após o seu falecimento.
A herança de Wanda e uma luta de décadas
Wanda lutou desde 1993 para que os circos menores não fossem engolidos pelo esquecimento. Infelizmente, ela faleceu em setembro de 2018, aos 87 anos, dentro do próprio circo, sem ver a aprovação final do Iphan que ocorreu agora em 2026.
Sua filha, Edlamar Maria Cabral Zanchettin, de 68 anos, que hoje ajuda a administrar o negócio da família, reivindica e celebra o protagonismo da mãe.
“Foi a nossa família quem protocolou, quem trabalhou, foi a Brasília, fez reunião. É como um Oscar para o circo brasileiro, porque é para todos. Ela lutou muito por isso, mas não chegou a alcançar este momento de glória. Foi a pessoa que foi na frente, nos empurrou, nos deu força e chegamos, graças a Deus, a esse reconhecimento.” — Edlamar Zanchettin, administradora do circo.






Resistência na pandemia: da lona para a roça em Campo do Tenente
A resiliência dessa tradição foi colocada à prova máxima recentemente. Durante a pandemia de Covid-19, quando o setor de eventos parou, o Circo Zanchettini teve que baixar sua lona. Sem bilheteria e sem público, a grande família de artistas encontrou refúgio em uma fazenda de amigos no município de Campo do Tenente, no interior do Paraná.
Durante quase dois anos, trapezistas, palhaços e malabaristas trocaram os aplausos pelo trabalho duro na terra, ajudando nas colheitas de feijão e batata para garantir o sustento da trupe. Mesmo no ambiente inóspito para a arte, a união familiar manteve o espírito do circo vivo até a retomada dos espetáculos.
As dificuldades da vida itinerante e a burocracia
O título de Patrimônio Cultural chega em um momento em que a sobrevivência dos pequenos circos é ameaçada. Além de concorrerem com grandes espetáculos internacionais e shows gratuitos de prefeituras, os artistas tradicionais sofrem com o peso da burocracia.
Edlamar relata que a cobrança de impostos e taxas pelo uso do solo é cruel com quem depende da bilheteria diária. Muitas prefeituras cobram aluguéis adiantados e taxas de funcionamento como se a lona fosse um grande supermercado ou uma edificação fixa, sem levar em conta as intempéries — se chove, não há público, mas o imposto já foi pago.
A renovação no picadeiro e as novas gerações
Apesar das dificuldades financeiras, a cultura se perpetua pelo sangue. Os 10 filhos de Wanda e Júlio cresceram em barracas em volta da lona e aprenderam as mais diversas funções, de acrobatas a administradores.
Hoje, as novas gerações já integram o elenco do Zanchettini. Segundo a família, a passagem do bastão é natural e envolve repassar não apenas as técnicas de malabarismo ou contorcionismo, mas também um “linguajar próprio” e uma sabedoria de estrada. É uma tradição que, em alguns circos brasileiros, já alcança a impressionante marca da oitava geração consecutiva.
O que muda com o título de Patrimônio Cultural
A expectativa da classe artística é que o reconhecimento do Iphan não seja apenas uma placa simbólica, mas uma ferramenta de transformação. O registro formal obriga o Estado a criar planos de salvaguarda para proteger essa cultura.
Na prática, as famílias circenses esperam que o título facilite o diálogo com os prefeitos pelo Brasil afora. O objetivo é que o poder público crie regulamentações específicas que isentem ou barateiem as taxas de uso de solo, garantindo terrenos adequados, segurança e acesso a direitos básicos, como educação e saúde, para os filhos dos artistas enquanto o circo estiver na cidade.

Com informação de Agência Brasil
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