UNICEF aponta mais de 100 crianças mortas em Gaza desde o ‘cessar-fogo’ de outubro; Israel, Hamas e ONU em choque sobre ajuda e violações

Os bombardeios e tiroteios na Faixa de Gaza já resultaram na morte de mais de 100 crianças desde o início de outubro do ano passado, período descrito como um ‘cessar-fogo’ firmado entre Israel e Hamas em 9 de outubro, com mediação dos Estados Unidos, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). O balanço foi divulgado nesta terça-feira (13) pelo porta-voz James Elder.

“Aproximadamente um menino ou menina mortos todos os dias. Durante um ‘cessar-fogo’”, afirmou Elder em vídeo gravado em Gaza. Ele ressaltou que o número pode ser maior do que o oficialmente contabilizado.

Uma morte infantil por dia, diz UNICEF

De acordo com o UNICEF, desde a entrada em vigor do acordo, foram registrados relatos de pelo menos 60 meninos e 40 meninas mortos na Faixa de Gaza. O total reflete apenas incidentes com detalhes suficientes para registro; portanto, o número real de crianças palestinas mortas provavelmente é maior. Centenas ficaram feridas.

O porta-voz sublinhou que as verificações são dificultadas pelas condições no território e que a contagem inclui apenas casos confirmados, deixando de fora possíveis mortes ainda não documentadas.

Relato em Gaza: Abid, 9 anos, ferido por estilhaços

Falando diretamente de Gaza, Elder apareceu ao lado de Abid Al Rahman, de 9 anos, ferido por estilhaços em Khan Younis, no sul do território. “Eu estava colhendo lenha e plásticos quando um míssil caiu perto de mim e um estilhaço grosso voou direto para o meu olho. Agora não consigo mais enxergar com meu olho”, disse o menino, que ainda tem o fragmento de metal alojado no rosto.

Ajuda sob restrições e alguns avanços

O UNICEF denuncia que a região permanece sob fortes restrições de acesso a suprimentos médicos, gás de cozinha, combustível e peças para o conserto de sistemas de água e esgoto. A limitação de insumos tem impacto direto na capacidade de atendimento à população mais vulnerável, segundo a agência.

Apesar disso, a organização relata alguns avanços durante o período do acordo, como a expansão de serviços de saúde — incluindo imunização — e reparos em encanamentos de água e redes de esgoto. Esses progressos, afirma o UNICEF, ocorreram graças à “engenhosidade palestina”, e não à liberação de peças de reposição.

Na área de nutrição, o UNICEF informa a abertura de mais de 70 centros de distribuição de alimentos em Gaza, o que teria contribuído para redução da fome no território.

Acusações sobre violações do acordo

As Forças Armadas de Israel afirmam que grupos palestinos estariam violando o cessar-fogo, o que tem levado a respostas militares. O Hamas, por sua vez, acusa Israel de manter uma política de extermínio do povo palestino, sobretudo por meio do bloqueio à entrada de ajuda humanitária.

Israel aprova lei que limita ONGs; MSF reage

No fim de dezembro, o Parlamento israelense aprovou uma lei que proíbe a atuação de 37 organizações de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, incluindo a Médicos Sem Fronteiras (MSF). O governo argumenta que as entidades se recusaram a compartilhar dados de funcionários palestinos com as autoridades israelenses.

A MSF classificou a exigência como violação de privacidade e um risco adicional para suas equipes. A organização afirmou ainda que 15 de seus colaboradores foram mortos por forças israelenses desde o início do conflito.

UNRWA e ONU contestam medidas israelenses

No mês passado, Israel determinou o corte de água, eletricidade, energia e comunicações das instalações de algumas dessas organizações, incluindo a Agência da ONU para Refugiados Palestinos (UNRWA). A medida levou o secretário-geral da ONU, António Guterres, a alertar que a questão pode ser levada à Corte Internacional de Justiça (CIJ).

A UNRWA já havia sido proibida de atuar nos territórios ocupados por Israel em outubro de 2024. O governo israelense alega que a agência emprega militantes do Hamas, mas não apresentou provas a uma investigação independente criada para apurar as acusações.

O comissário-geral da UNRWA, Philippe Lazzarini, afirmou que as novas restrições “fazem parte de um padrão preocupante de desrespeito ao direito internacional humanitário e de entraves crescentes às operações de ajuda”. O embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, respondeu que a organização estaria tentando “intimidar” o país e acusou a UNRWA de atuar como “subsidiária do Hamas”.

Alfredo R. Martins Jr. é jornalista e a voz principal do Jornal O Paranaense. Formado em Comunicação Social com especializações em Marketing e Gestão de Comunicação, possui mais de 17 anos de experiência na análise do cenário paranaense. Sua missão é traduzir a complexidade da política, economia e cultura do estado em informação clara, acessível e relevante para o leitor.
Alfredo R. Martins Jr.

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