(Foto: Tânia Regô)
Geração em crise: IBGE revela explosão de bullying, violência sexual e depressão entre adolescentes
Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) entrevistou quase 120 mil alunos em 2024 e traçou um retrato alarmante das escolas brasileiras. Meninas são as maiores vítimas de humilhações, abusos no ambiente familiar e lesões autoprovocadas.
Os corredores das escolas brasileiras abrigam uma geração que sofre silenciosamente com a violência e o esgotamento psicológico. É o que revela a edição 2024 da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada nesta quarta-feira (25) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O levantamento, que ouviu 118.099 estudantes de 13 a 17 anos em 4.167 escolas públicas e privadas de todo o país, traçou um raio-x preocupante sobre a juventude. Os dados apontam para um agravamento sistemático em três frentes críticas: o aumento da persistência do bullying, a escalada assustadora da violência sexual contra meninas e um quadro generalizado de sofrimento mental.
A persistência e a crueldade do bullying
A escola deixou de ser um ambiente seguro para grande parte dos alunos. Quatro em cada dez estudantes brasileiros (39,8%) afirmam já ter sido alvos de bullying. O dado mais alarmante, no entanto, não é apenas o volume, mas a repetição das agressões: 27,2% dos alunos já sofreram alguma forma de humilhação duas ou mais vezes.
Em relação à última pesquisa, realizada em 2019, o IBGE notou uma mudança no padrão de comportamento dos agressores.
“O bullying já é caracterizado como algo persistente, intermitente. O número dos que sofrem permanece praticamente igual, porém, a persistência dos episódios e a intensidade deles aumentou.” — Marco Andreazzi, gerente da pesquisa do IBGE.
A aparência do rosto ou do cabelo lidera o ranking de motivações para os ataques (30,2%), seguida pela aparência do corpo (24,7%) e pela cor ou raça (10,6%). As agressões também estão ultrapassando a barreira verbal: 16,6% dos estudantes relataram já terem sido agredidos fisicamente pelos colegas.
O silêncio sobre o preconceito
A pesquisa revelou um abismo entre o que os agressores confessam e o que as vítimas relatam, indicando um forte medo de estigmatização.
Enquanto 12,1% dos autores admitiram ter cometido bullying motivados pela orientação sexual ou identidade de gênero dos colegas, apenas 6,4% das vítimas reconheceram publicamente esse motivo. O mesmo fenômeno de silenciamento ocorre em relação a deficiências: 7,6% dos autores confessam o ataque capacitista, mas só 2,6% das vítimas associam a agressão a essa característica.
Epidemia de violência sexual contra meninas
O capítulo mais sombrio do relatório do IBGE diz respeito à violência de gênero. Um quarto (25%) de todas as estudantes adolescentes do Brasil já sofreu alguma situação de violência sexual, que inclui toques não consentidos, beijos forçados ou exposição de partes íntimas. Esse índice representa um salto assustador de 5,9 pontos percentuais em relação a 2019.
A pesquisa também apontou que 11,7% das alunas entrevistadas foram intimidadas ou forçadas a manter relações sexuais (um aumento de 2,9 pontos na comparação histórica). Em números absolutos, considerando ambos os gêneros, o Brasil tem hoje nas escolas mais de 2,2 milhões de vítimas de assédio e 1,1 milhão de adolescentes que sofreram relações forçadas.
O perigo mora dentro de casa
O local e a autoria desses crimes destroem o mito de que o perigo está nas ruas. Entre os adolescentes que foram forçados a ter relações sexuais, a esmagadora maioria foi violentada por pessoas do seu próprio círculo de confiança:
- 26,6% foram abusados por outros familiares (tios, primos, avós);
- 22,6% por namorados ou ex-namorados;
- 16,2% por amigos;
- 8,9% pelo próprio pai, padrasto, mãe ou madrasta.
A idade das vítimas agrava ainda mais o cenário: 66,2% daqueles que sofreram relação forçada tinham 13 anos ou menos quando o crime ocorreu.
Gravidez precoce e sexo sem proteção
A violência sexual e a falta de educação reprodutiva refletem diretamente nos índices de gravidez na adolescência. O IBGE identificou que cerca de 121 mil meninas de 13 a 17 anos já engravidaram, sendo que 98,7% delas estão matriculadas na rede pública de ensino.
O uso de preservativos está em queda. Apenas 61,7% dos estudantes usaram camisinha na primeira relação sexual, um número que cai para 57,2% na relação mais recente. Como reflexo do desespero e da falta de planejamento, quatro em cada dez meninas confessaram já ter tomado a pílula do dia seguinte (um contraceptivo de emergência) pelo menos uma vez na vida.
Saúde mental em colapso
Com um cenário de bullying crônico e violência estrutural, a saúde mental dessa geração está ruindo. Três em cada dez estudantes afirmam que se sentem tristes “sempre ou na maioria das vezes”. Além disso, 18,5% dos adolescentes relataram pensar constantemente que “a vida não vale a pena ser vivida”.
O recorte de gênero mostra que as meninas estão suportando uma carga psicológica esmagadora em comparação aos meninos:
- Sentem-se tristes sempre: Meninas (41%) x Meninos (16,7%)
- Irritação e nervosismo constante: Meninas (58,1%) x Meninos (27,6%)
- Acreditam que a vida não vale a pena: Meninas (25%) x Meninos (12%)
- Insatisfação com o próprio corpo: Mais de 33% das meninas x Menos de 20% dos meninos.
Autoagressão e a falta de amparo nas escolas
A dor invisível está se materializando no corpo. O IBGE calcula que cerca de 100 mil estudantes brasileiros provocaram lesões e ferimentos em si mesmos nos 12 meses anteriores à pesquisa. Entre os jovens que se automutilam, 69,2% são vítimas de bullying.
Apesar da gravidade dessa epidemia de saúde mental, os adolescentes estão desamparados. Menos da metade dos alunos estuda em locais que oferecem algum suporte psicológico. A presença de um profissional de saúde mental no quadro de funcionários da escola é um privilégio restrito a apenas 34,1% dos estudantes brasileiros.
“A criação de políticas públicas que contemplem essas diferenças entre os sexos é importante e urgente, para que as mulheres do país possam manter seu bem-estar e sua capacidade inegável de contribuição para a sociedade.” — Conclusão dos pesquisadores do IBGE.
Onde buscar ajuda imediata
Se você, ou alguém que você conhece, está enfrentando pensamentos de automutilação ou desespero, procure acolhimento imediato. Não hesite em pedir ajuda.
- Centro de Valorização da Vida (CVV): Ligue 188 (atendimento gratuito, sigiloso e 24 horas por dia).
- Rede Pública: Busque os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Unidades Básicas de Saúde ou UPAs 24h.

Com informações de Agência Brasil)
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