(Foto: Adobestock)
Sintomas invisíveis da esclerose múltipla confundem médicos e pacientes
Pacientes relatam espera de até dez anos e laudos errados antes de iniciar o tratamento adequado para a doença neurológica.
Mulheres jovens em plena fase produtiva perdem a mobilidade, a autonomia financeira e a saúde mental enquanto aguardam respostas médicas para sintomas físicos confusos. Um formigamento ou uma dormência nas mãos frequentemente acaba tratado como uma crise de ansiedade nos prontos-socorros.
Essa falha de interpretação clínica empurra milhares de brasileiras para um ciclo de agravamento da esclerose múltipla. Quando a confirmação acontece, o sistema nervoso central já acumula danos irreversíveis.
No Paraná, pacientes que dependem de centros de referência em cidades como Curitiba e Londrina enfrentam desafios semelhantes na triagem. A jornada até um neurologista especializado exige persistência, visto que os sintomas tendem a desaparecer sozinhos nos primeiros estágios da doença. Uma pesquisa recente da HSR Health, conduzida junto à Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (ABEM), dimensiona essa falha no sistema de saúde atual.
Mais da metade dos 368 pacientes entrevistados (56,8%) recebeu laudos incorretos antes da confirmação da esclerose. O estudo revela que o doente passa por até quatro médicos diferentes e aguarda, em média, três anos pelo diagnóstico exato. Entre os participantes da pesquisa, 26,6% esperaram mais de cinco anos, enquanto 14,1% levaram uma década inteira lutando contra os sintomas até receberem a resposta correta.
Sintomas invisíveis e a peregrinação nos consultórios
A esclerose múltipla afeta cerca de 40 mil brasileiros, acometendo principalmente mulheres entre 20 e 40 anos. A patologia faz o sistema imunológico atacar a mielina, estrutura responsável por revestir e proteger as fibras nervosas. Esse processo inflamatório crônico interrompe a comunicação entre o cérebro e o resto do corpo humano.
O neurologista Rodrigo Kleinpaul, coordenador do Ambulatório de Neuroimunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), esclarece o motivo da confusão inicial nos consultórios. Embaçamento visual, dores musculares e fadiga extrema simulam perfeitamente outras condições clínicas cotidianas.
“Não é incomum uma mulher jovem chegar ao pronto-socorro com queixa de formigamento e dormência e receber o diagnóstico de ansiedade. Então, isso também gera atraso de diagnóstico.”
A educadora física Lucimara de Lima Santana, de 44 anos, exemplifica essa peregrinação médica. Ela visitou oftalmologistas e ortopedistas durante quatro anos consecutivos sem sucesso investigativo. A paciente chegou a ficar acamada devido à dor e à falta de ar gerada pela fadiga intensa, recebendo suspeitas de dengue até finalmente realizar ressonâncias magnéticas completas da coluna e coleta de líquido cefalorraquidiano.
O impacto financeiro e emocional da doença crônica
O atraso na detecção gera um alto impacto para a rotina e as finanças do indivíduo. A pesquisa aponta que 36% dos entrevistados consideram os próprios profissionais de saúde a principal barreira para o diagnóstico correto. Outros 23% apontam a dificuldade de acesso a exames complementares de alto custo, como a ressonância magnética, um gargalo logístico conhecido por usuários que dependem da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (Sesa) ou de planos de saúde privados.
As consequências físicas afetam diretamente a vida profissional dos indivíduos atingidos. O levantamento indica que 72,8% dos diagnosticados sofreram prejuízos na renda ou perderam oportunidades de crescimento no mercado de trabalho. O estigma ainda assombra essas pessoas, levando 32,6% delas a esconder a condição crônica no ambiente corporativo por medo de preconceito ou demissão sumária.
A saúde mental acompanha o declínio motor. Problemas emocionais forçaram 73,4% dos entrevistados a abandonar uma série de atividades cotidianas prazerosas. O isolamento social também atinge 41,6% do grupo, enquanto 85,6% precisam arcar com gastos mensais extras relacionados aos cuidados da doença.
Avanços no tratamento e controle da progressão clínica
A esclerose múltipla não tem cura, mas a intervenção médica precoce altera radicalmente o futuro da pessoa diagnosticada. O cenário atual difere do panorama de uma década atrás, quando uma jovem diagnosticada aos 20 anos provavelmente dependeria de cadeira de rodas ao atingir os 40. Medicamentos modernos conseguem estabilizar a doença, frear as inflamações e evitar sequelas motoras ou visuais severas.
O médico responsável pelo estudo destaca a necessidade de preservar a reserva funcional do sistema nervoso no menor tempo possível.
“Chega o momento em que esse dano no cérebro ou na medula vai diminuindo a reserva que o paciente tem, aquela reserva funcional. E começa o que a gente chama de progressão de incapacidade e isso pode levar o paciente a ficar com incapacidade definitiva.”
Atualmente, 48% dos pacientes monitorados pelo estudo estão estáveis ou em fase de remissão, e 39% mantêm vida economicamente ativa. Pacientes atendidos em polos como o Hospital de Clínicas da UFPR comprovam que a adesão contínua aos tratamentos imunomoduladores garante qualidade de vida e autonomia prolongada.
Para que o tratamento funcione de fato, o sistema de saúde e a rede de apoio precisam transpor barreiras específicas:
- Consultas regulares de acompanhamento com equipes multidisciplinares focadas em doenças autoimunes.
- Liberação ágil de medicamentos de alto custo nas farmácias especiais para evitar interrupções no esquema terapêutico.
- Apoio psicológico para enfrentar as fases de negação, luto e depressão registradas logo após o diagnóstico clínico.
- Compreensão familiar sobre a invisibilidade de muitos sintomas, respeitando os dias de maior comprometimento físico do paciente.
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Com informações de Agência Brasil
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