Primeiro pontífice norte-americano da história adota postura mais institucional, afasta-se do estilo de Francisco e ganha os holofotes ao se opor às políticas do presidente dos Estados Unidos.
O papa Leão XIV celebra nesta sexta-feira (8) o seu primeiro ano à frente da Igreja Católica. Eleito no dia 8 de maio de 2025, o antigo cardeal norte-americano Robert Francis Prevost assumiu o Vaticano com o desafio de equilibrar as diferentes correntes da igreja. No entanto, o que mais marcou seus primeiros doze meses de pontificado não foram apenas as questões religiosas, mas um choque geopolítico direto com o presidente do seu país natal, Donald Trump.
Com um estilo que mistura firmeza moral e prudência institucional, Leão XIV mostrou que, embora seja o primeiro papa dos Estados Unidos, não está disposto a alinhar a Igreja às políticas de Washington.
Ao mesmo tempo, internamente, o pontífice tem traçado um caminho próprio, distanciando-se do perfil altamente carismático e popular de seu antecessor, o papa Francisco, e resgatando tradições antigas do Vaticano.
Abaixo, detalhamos os principais marcos deste primeiro ano de papado.
O choque direto com Donald Trump
O episódio de maior repercussão internacional neste primeiro ano foi a troca pública de farpas com o presidente dos Estados Unidos. O papa Leão XIV criticou abertamente as políticas de imigração americanas, afirmando que elas vão contra os ensinamentos cristãos. Como gesto simbólico, ele chegou a nomear um imigrante indocumentado como bispo da Virgínia Ocidental.
Além disso, o pontífice condenou as recentes operações militares americanas na Venezuela e no Irã, criticando o que chamou de “diplomacia da força”. A postura irritou Donald Trump, que foi às redes sociais e a discursos públicos para atacar o líder católico.
“Ele é fraco no combate ao crime, demasiado liberal e péssimo em política externa”, declarou o presidente norte-americano há cerca de três semanas.
Leão XIV, por sua vez, não recuou. O papa afirmou que “não tem medo” do presidente e deixou claro que os papéis de ambos são fundamentalmente diferentes:
“Não lidamos com política externa na mesma perspectiva que ele talvez a entenda; eu acredito na mensagem do Evangelho, como um pacificador. A minha missão é proclamar o Evangelho, não ser político.”
De volta às tradições: as diferenças para o papa Francisco
Internamente, ficou claro desde os primeiros dias que Leão XIV faria uma gestão diferente daquela vista nos últimos 12 anos sob o comando de Francisco. Logo em sua primeira semana, ele sinalizou aos funcionários do Vaticano que “os papas passam, mas a Cúria permanece”, indicando um governo focado na estabilidade das instituições.
Para marcar seu próprio caminho, o novo papa alterou costumes que haviam se tornado a marca registrada de seu antecessor:
- Residência oficial: Enquanto Francisco preferiu viver de forma simples na Casa Santa Marta, Leão XIV decidiu retornar aos aposentos oficiais do Palácio Apostólico.
- Descanso e férias: Diferente do papa argentino, que abriu mão de férias, o atual pontífice resgatou o uso da residência de verão de Castel Gandolfo.
- Semana Santa: Na tradicional cerimônia de lava-pés da Quinta-Feira Santa, Francisco costumava ir a presídios lavar os pés de detentos. Leão XIV optou por lavar os pés dos padres da diocese de Roma.
- Missa em latim: Em um gesto de aceno aos conservadores, ele autorizou a celebração da missa no rito antigo (Missa Tridentina) na Basílica de São Pedro, diminuindo tensões com a ala tradicionalista.
Doutrina conservadora e reforma silenciosa
No campo das regras da Igreja, o estilo de Leão XIV foi descrito por analistas como uma “reforma por absorção”: mudanças graduais e sem grandes sobressaltos. Ele reorganizou a Cúria Romana (o governo do Vaticano) e deu mais poder à Secretaria de Estado, que cuida da diplomacia.
Em relação à doutrina, o papa reafirmou posições conservadoras, tentando evitar debates prolongados que pudessem dividir a igreja. Ele manteve a posição oficial contra o aborto, a eutanásia e a ordenação de mulheres como padres. Além disso, publicou o texto Una caro, um documento focado na defesa da monogamia e do casamento tradicional.
Atuação global: das guerras à inteligência artificial
O papa também se mostrou bastante ativo na agenda global. Ele não limitou seus discursos aos problemas dos Estados Unidos, mas cobrou líderes mundiais em diversas frentes:
- Conflitos armados: Apelou por negociações justas na guerra da Ucrânia e condenou a violência no Oriente Médio, afirmando que “Deus rejeita as orações de quem promove conflitos”.
- Exploração na África: Em abril, durante uma visita a Angola, criticou a exploração predatória dos recursos naturais, alertando que o país “não deve ser tratado como uma mina a céu aberto”.
- Tecnologia: Leão XIV também entrou no debate sobre a inteligência artificial. Ele alertou para os riscos da tecnologia e defendeu que a inovação deve sempre respeitar a dignidade humana e a justiça no mercado de trabalho.
Desafios e críticas de todos os lados
Apesar da imagem de moderado e pacificador, o primeiro ano não foi livre de fortes pressões. Pelo fato de tentar agradar a diferentes alas, Leão XIV acaba recebendo críticas de várias frentes:
- Teólogos progressistas reclamam da falta de abertura para debater novos papéis para as mulheres na Igreja, como o diaconato feminino.
- Setores ultraconservadores acusam o papa de ser muito brando e de manter uma “ambiguidade pastoral” em certos temas sociais.
- Organizações de vítimas de abusos sexuais questionam algumas decisões passadas do pontífice enquanto ele ainda atuava nos Estados Unidos.
Apesar das cobranças, o primeiro papa norte-americano da história encerra seu primeiro ano consolidado como uma figura de mediação. Como destacou o jornal digital Sete Margens, ele provou que é possível “reconhecer o valor da tradição e mesmo assim ser profeta”.
Com informações de Agência Brasil
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