(Foto: Mahmoud Issa)
Futebol renasce entre as ruínas de Gaza: primeiro torneio em dois anos traz alento após a guerra
Quatro meses após o cessar-fogo, bola volta a rolar no bairro de Tal al-Hawa; partidas em campos improvisados simbolizam a resistência de uma população que tenta reconstruir a vida.
Em um terreno onde a linha lateral é desenhada por escombros e a arquibancada é formada por muros de concreto quebrado, o futebol voltou a respirar na Faixa de Gaza. Nesta semana, o bairro de Tal al-Hawa, na Cidade de Gaza, foi palco do primeiro torneio organizado na região em mais de dois anos.
O cenário está longe dos gramados perfeitos vistos na televisão. No “Palestine Pitch”, um campo de futebol society recuperado às pressas, o Jabalia Youth enfrentou o Al-Sadaqa em uma partida histórica, não pelo nível técnico, mas pelo que representou: um grito de normalidade em meio ao caos.
O jogo da vida real
A partida inaugural terminou empatada, assim como o segundo confronto do dia entre Beit Hanoun e Al-Shujaiya. Mas o placar foi mero detalhe. O verdadeiro espetáculo estava do lado de fora das quatro linhas.
Torcedores se aglomeraram na cerca de arame recém-instalada, sacudindo a grade a cada lance. Meninos escalavam as ruínas dos prédios vizinhos para ter uma visão privilegiada, enquanto o som de um tambor improvisado ditava o ritmo da torcida.
Youssef Jendiya, de 21 anos, jogador do Jabalia Youth, resumiu o misto de sentimentos ao pisar novamente no campo. Ele vem de uma parte de Gaza que foi amplamente despovoada e destruída durante o conflito.
“Estou confuso. Feliz, triste, alegre… As pessoas procuram água pela manhã: comida, pão. A vida é um pouco difícil. Mas ainda resta um pouco do dia, quando você pode vir jogar futebol e expressar um pouco da alegria que tem dentro de você”, desabafou o atleta.
A alegria, no entanto, carrega o peso da ausência. “Você vem ao estádio sentindo falta de muitos dos seus companheiros de equipe… mortos, feridos ou aqueles que viajaram para receber tratamento. Então, a alegria é incompleta”, completou Jendiya.
Reconstrução lenta após o cessar-fogo
O torneio acontece quatro meses após o acordo de cessar-fogo que encerrou os combates mais intensos entre Israel e o Hamas, em outubro de 2025. Apesar da trégua, a reconstrução física de Gaza mal começou.
Cerca de dois terços da população ainda vivem deslocados, amontoados em uma faixa de ruínas ao longo da costa. A Associação de Futebol local teve que trabalhar duro para viabilizar os jogos: limpou os escombros de um muro que havia desabado sobre o campo e varreu os detritos que cobriam a grama sintética desgastada.
A situação é ainda mais dramática em outros pontos da cidade. O antigo Estádio Yarmouk, que tinha capacidade para 9.000 pessoas, hoje não existe mais como praça esportiva. O local, que chegou a ser usado como centro de detenção, agora abriga centenas de famílias deslocadas vivendo em barracas improvisadas sobre a terra batida.
Uma mensagem de resistência
Para os atletas que entraram em campo, cada passe e cada dividida carregavam um simbolismo. Amjad Abu Awda, de 31 anos, jogador do Beit Hanoun, foi enfático sobre o propósito do torneio.
“Ao entrar em campo, estamos passando uma mensagem: que não importa o que tenha acontecido em termos de destruição e guerra, continuamos jogando e vivendo. A vida precisa continuar.”
A retomada do calendário esportivo, mesmo que de forma precária, é vista como vital para a saúde mental dos jovens palestinos, oferecendo uma rara válvula de escape em uma rotina ainda marcada pela sobrevivência diária.
Com informações de Agência Brasil
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