(Foto: Canva)
UTI neonatal de Curitiba faz apelo urgente por leite materno
Estoque de leite materno atende pouco mais da metade da demanda na UTI neonatal; hospital reforça sistema de coleta domiciliar para atrair doadoras
Dezenas de bebês prematuros internados na UTI Neonatal do Hospital de Clínicas aguardam diariamente pela principal medicação para sua sobrevivência. O leite humano atua como um recurso terapêutico primário e insubstituível para recém-nascidos de extremo baixo peso. Contudo, os estoques atuais da instituição atendem apenas uma fração da necessidade diária da unidade em Curitiba.
Para manter os 30 leitos da UTI operando com suporte nutricional pleno, a unidade de saúde exige um fornecimento de cerca de 130 litros mensais. Os registros recentes expõem uma defasagem severa no abastecimento e um risco iminente. Ao longo de todo o mês de julho, a captação estacionou na marca de 75 litros, acendendo o sinal de alerta nas equipes de enfermagem.
O balanço das semanas seguintes evidenciou o agravamento da situação na UFPR. Até o dia 20 de agosto, os refrigeradores contabilizaram meros 55 litros arrecadados. Essa restrição prolongada afeta diretamente o protocolo de tratamento de crianças internadas. Muitas das mães abrigadas na instituição enfrentam bloqueios na lactação inicial, causados pelo choque emocional do parto antecipado ou por instabilidades clínicas após a cirurgia.
Função terapêutica do alimento reduz tempo de internação
Especialistas em neonatologia tratam o leite humano como um verdadeiro soro de proteção biológica. O fluido carrega anticorpos maternos complexos que fortalecem o sistema imunológico ainda inativo dos prematuros. Esse aporte celular não apenas acelera a evolução do peso e a maturação do sistema nervoso, mas define o cronograma de alta hospitalar da criança.
Além do suporte nutricional básico, a substância cria uma barreira gástrica contra patógenos hospitalares. O consumo precoce despenca a incidência de enterocolite necrosante. Essa inflamação intestinal severa lidera os riscos de mortalidade entre os pacientes de baixo peso, e nenhuma fórmula industrializada consegue replicar o grau de proteção natural oferecido pelo organismo materno.
Apesar dos laudos médicos atestarem esses resultados na recuperação neonatal, a insegurança das voluntárias representa a maior barreira para as campanhas de arrecadação. Muitas mulheres temem que a retirada extra comprometa a alimentação dos próprios filhos em casa. A fisiologia da amamentação, no entanto, segue a lógica de produção por demanda. O esvaziamento constante da mama envia comandos diretos ao cérebro para aumentar a fabricação do fluido.
Coleta em casa facilita a rotina das mães doadoras
O distanciamento físico entre as residências e o complexo de saúde não impede a solidariedade. A administração estruturou um esquema de logística integrada que varre os bairros da capital e os municípios da Região Metropolitana de Curitiba. A meta do serviço focado em mobilidade consiste em absorver todo o esforço de transporte, evitando sobrecarregar a rotina exaustiva das lactantes.
Uma equipe técnica agenda a ida da viatura oficial até a casa da doadora nos horários mais convenientes. No primeiro encontro presencial, os profissionais realizam uma avaliação de saúde, entregam kits de frascos de vidro esterilizados e aplicam um treinamento dinâmico sobre os processos seguros de ordenha e congelamento.
A rotina de doação avança de forma automatizada após este cadastro inicial. O veículo da unidade programa retornos semanais ou quinzenais, conforme o ritmo fisiológico de produção de cada voluntária, para resgatar o material armazenado nos congeladores domésticos. A equipe transporta todo o lote sob temperatura controlada até os laboratórios de pasteurização do complexo médico.
Rigor sanitário evita o descarte do material
A etapa da extração caseira exige cautela, pois concentra o maior nível de risco para a operação do banco. Bactérias e fungos imperceptíveis do ambiente doméstico possuem potencial para arruinar litros inteiros da arrecadação daquela semana. O processo de preparação exige que a doadora utilize vestuário limpo, prenda bem os cabelos e faça a desinfecção sistemática das mãos e das mamas com água e sabão.
O controle do espaço físico durante a ordenha demanda o mesmo nível de disciplina operacional. A presença de animais de estimação, poeira acumulada ou até conversas paralelas no cômodo facilitam a contaminação cruzada do fluido. A enfermeira e atual chefe da Unidade de Cuidado Neonatal do Hospital de Clínicas, Natálya Gonçalves Machado, traduz o peso dessas variáveis para a rotina diária das incubadoras:
“Gostamos de lembrar que os cuidados na hora de extrair o leite são muito importantes. Cabelos presos, roupas limpas, mãos lavadas, mama higienizada e animais domésticos em outro ambiente. Isso garante a qualidade do leite. Qualquer tipo de contaminação pode ocasionar o descarte da doação, o que é uma pena diante da preciosidade de cada gota.”
Redes de apoio e doação de frascos
A sociedade civil consegue intervir na crise de abastecimento mesmo sem viabilidade biológica para doar leite. O processamento e envase laboratorial consome centenas de frascos de vidro de boca larga, preferencialmente com tampas plásticas rosqueáveis. Embalagens vazias de café solúvel formam o formato exato exigido para resistir aos ciclos extremos das autoclaves do hospital.
As mulheres em fase de amamentação interessadas em integrar a rede de proteção aos prematuros contam com canais diretos de comunicação para iniciar o processo. O agendamento para a visita domiciliar, bem como o esclarecimento de dúvidas técnicas, ocorrem pelo telefone da unidade: (41) 3360-1867. A equipe plantonista também responde e recebe inscrições pelo WhatsApp, através do número (41) 98534-1287.
Para os doadores focados na entrega física de vidros vazios ou que prefiram finalizar o cadastro de forma presencial, o setor de triagem funciona em um anexo da maternidade principal. A estrutura de atendimento diário fica localizada na Rua General Carneiro, 181, no tradicional bairro Alto da Glória, na região central da capital.
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