(Foto: Divulgação BRICS)
Tensão no Oriente Médio e petróleo a US$ 100 ditam rumos da Cúpula do Brics
Cúpula do Brics em Nova Delhi debate moedas locais e protecionismo
O fechamento virtual do Estreito de Ormuz e a consequente alta do petróleo para mais de US$ 100 o barril refletem o estrangulamento da cadeia produtiva global. O cenário de encarecimento de fretes, inflação energética e incerteza logística molda as decisões da Cúpula do Brics, que ocorre nestes dias 12 e 13 de setembro em Nova Delhi, na Índia.
Os líderes das nações emergentes lidam com a urgência de mitigar os danos econômicos causados pela escalada militar que atinge diretamente parceiros estratégicos do bloco.
O grupo divulgou neste sábado a declaração “Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”. O documento adota um tom cauteloso para manter a coesão de um fórum que detém 39% da economia mundial, 48,5% da população global e 23% do comércio do planeta. As 35 páginas do texto atestam a pressão monumental de equilibrar interesses opostos entre seus próprios membros, especialmente após as recentes fraturas diplomáticas.
O peso do conflito militar na estrutura interna do bloco
A guerra liderada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã, desencadeada sob acusações de desenvolvimento nuclear no início de fevereiro, rachou a articulação do fórum. A retaliação iraniana, que incluiu o lançamento de mísseis contra os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, forçou Abu Dhabi a suspender todas as transações comerciais e financeiras com Teerã no mês de agosto. Essa ruptura direta entre dois membros recém-adicionados testou o limite operacional do grupo.
A situação expõe a fragilidade de uma aliança composta por nações focadas em cooperação econômica, agora arrastadas para disputas bélicas diretas. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, admitiu previamente que as diferenças causaram um impacto negativo nos trabalhos diplomáticos.
As divergências exigiram mediação intensiva dos governos da Rússia e da China para viabilizar a cúpula. O pesquisador do Atlantic Council, Michael Kugelman, detalhou o paradoxo central da nova formação do fórum.
“Alguns dos novos membros dos Brics — Irã, Emirados Árabes Unidos, Egito e Etiópia — estão envolvidos em tensões e não concordam em muitos pontos. Isso é uma má notícia para uma entidade que opera com base no consenso. Há uma ironia aqui: a expansão do Brics reflete seu crescente apelo e proeminência. Mas esse mesmo atrativo, devido às visões divergentes dos novos membros, pode tornar o grupo menos eficaz.”
Diplomacia contorna divisões na redação do texto oficial
Para evitar o fracasso de um encontro sem resoluções práticas, os diplomatas optaram por omissões calculadas. A declaração conjunta suprime categoricamente os nomes dos países envolvidos nos ataques e descarta a palavra guerra de seus 140 parágrafos. O texto institucional contido no Parágrafo 28 foca inteiramente na contenção de danos para aplacar a animosidade imediata.
“Expressamos profunda preocupação com a contínua escalada das tensões no Oriente Médio/Ásia Ocidental e, recordando nossas respectivas posições nacionais, conclamamos ao exercício da máxima contenção, bem como à abstenção de ações que possam agravar ainda mais a situação.”
O ex-diplomata indiano Rajiv Bhatia apontou que os acordos elaborados anteriormente na Organização de Cooperação de Xangai serviram de molde para pacificar a redação da carta. A tática de utilizar linguagem estritamente processual garantiu a assinatura conjunta de figuras politicamente antagônicas presentes no evento.
Lado a lado, endossaram o documento o iraniano Masoud Pezeshkian e o xeque Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, herdeiro de Abu Dhabi. O encontro ainda abrigou o chinês Xi Jinping, o russo Vladimir Putin e o indiano Narendra Modi, além de contar com a presença de António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas.
Contraofensiva econômica e críticas severas ao protecionismo
Longe das tensões bélicas, a cúpula convergiu rapidamente na articulação de uma defesa comercial unificada. A declaração oficial direcionou críticas contundentes à imposição de tarifas unilaterais no mercado internacional. Os signatários registraram profunda insatisfação com medidas não tarifárias que distorcem o fluxo de mercadorias e atropelam as regras estipuladas pela Organização Mundial do Comércio.
A mensagem confronta diretamente o governo dos Estados Unidos, que consolidou uma política agressiva de taxações generalizadas desde a mudança de gestão em 2025. O tarifaço norte-americano mira frontalmente as exportações da China e da Índia, exigindo uma reação orquestrada dos parceiros afetados.
Como tática de contorno, o documento oficial do bloco acelera o desenvolvimento de mecanismos de pagamentos transfronteiriços utilizando moedas locais. A iniciativa busca blindar as economias emergentes das flutuações e pressões do dólar, embora a criação de uma moeda unificada não apareça no cronograma de curto prazo.
O encerramento do texto eleva a pressão por mudanças na governança global. O grupo exige a reforma imediata do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, com a meta de acomodar as demandas urgentes dos países em desenvolvimento e extinguir a sub-representação asiática e africana.
A redação oficializa o suporte estrutural da China e da Rússia para ampliar a influência da Índia na instituição. Os chefes de estado ratificaram que a erradicação da pobreza extrema permanece como a barreira primária e inegociável para a viabilidade de qualquer desenvolvimento econômico global futuro.
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Com informações de Agência Brasil
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