O embaixador do Brasil no Irã, André Veras, afirmou que uma eventual derrubada do regime iraniano por meio de intervenção militar estrangeira demandaria uma operação de grande complexidade e elevado custo humano e econômico.
Em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, no programa Alô Alô Brasil, da Rádio Nacional, nesta segunda-feira (9), Veras classificou a hipótese como uma tarefa “hercúlea, sangrenta” e advertiu para impactos globais sobre cadeias logísticas e o mercado de energia.
‘Ataques aéreos não bastam’ e terreno dificulta ofensiva terrestre
Segundo Veras, a simples intensificação de bombardeios não seria suficiente para provocar uma mudança de regime. “Não haveria uma possibilidade de mudança [no regime iraniano] ou de algum fim deste conflito se fôssemos pensar apenas da perspectiva de ataques [exclusivamente] aéreos”, disse.
Ele acrescentou que a discussão sobre envio de tropas terrestres, aventada em círculos internacionais, esbarra em obstáculos concretos: as dimensões do território iraniano, sua geografia montanhosa e a capacidade ofensiva e defensiva das forças locais. “Aqui, a coisa vai exigir um pouco mais de esforço se quiserem, realmente, derrubar o regime. E acho que será uma tarefa hercúlea. Sangrenta”, resumiu.
O embaixador também pontuou que o cenário no Irã difere de experiências recentes dos Estados Unidos em conflitos na região, o que, em sua avaliação, eleva os riscos e a complexidade de qualquer incursão em larga escala.
Serviços em funcionamento e resiliência infraestrutural após ataques
De acordo com Veras, dez dias após Estados Unidos e Israel iniciarem os primeiros ataques aéreos contra alvos em território iraniano – ofensivas que, segundo sua descrição, mataram o líder supremo Ali Khamenei e centenas de civis – serviços essenciais continuam operando, e a população tenta manter a rotina. “O comércio está aberto. As escolas estão tendo aulas remotamente. Os mercados continuam abastecidos. Não há corte de energia, de água ou gás, mas a gasolina está sendo racionada”, relatou.
O racionamento de combustíveis, acrescentou, não decorre apenas da conjuntura de guerra. “Antes mesmo do início do conflito, o Irã já estava passando por uma limitação de sua capacidade de refino”, observou, destacando sinais de resiliência da infraestrutura civil, mesmo sob pressão.
Sucessão no topo do regime e críticas internas
Na avaliação do embaixador, a rápida substituição de Ali Khamenei por seu filho, Seyyed Mojtaba Khamenei, de 56 anos, decidida pela Assembleia dos Especialistas, indica robustez institucional do sistema iraniano.
A escolha, apontou, foi confirmada no domingo, poucos dias após os bombardeios à residência do antigo aiatolá. “O Irã está muito bem estruturado legalmente. E o sistema tem uma resiliência muito grande. A morte, ou qualquer desaparecimento de [autoridades], tem um processo automático de substituição”, disse.
Veras pondera, porém, que a ascensão do filho pode alimentar críticas internas, em um ambiente já marcado por protestos contra o custo de vida e a repressão política. “A revolução islâmica foi feita contra um regime hereditário.
E, agora, assumir o filho [de Ali Khamenei] cria uma impressão de que o sistema substituído permanece, de outra forma”, afirmou. Segundo ele, Mojtaba teria ligação estreita com a Guarda Revolucionária e setores mais conservadores do clero, o que, neste momento de contestação, seria interpretado como “resposta dura” do Estado a opositores internos e externos.
Brasileiros no Irã: sem plano de evacuação e apoio consular
Questionado sobre a segurança de cidadãos brasileiros, Veras disse que, por ora, não houve necessidade de discutir uma operação de retirada. As fronteiras terrestres com países vizinhos permanecem abertas e têm sido usadas por quem deseja deixar o Irã. “Há poucos brasileiros vivendo no país, cerca de 200 pessoas, principalmente mulheres casadas com iranianos”, explicou.
Segundo o embaixador, a embaixada acompanha casos pontuais e mantém contato diário com as chefias do Itamaraty, que informam constantemente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A principal demanda no posto diplomático, relatou, tem sido a emissão de documentos e vistos.
Impacto global e necessidade de solução negociada
Embora considere improvável a rendição do regime iraniano – para o qual a resistência aos ataques seria “questão de vida ou morte” –, Veras não descarta uma saída diplomática. Em sua avaliação, o Irã precisa do alívio de sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, enquanto Washington e a comunidade internacional necessitam de estabilidade para o bom funcionamento da economia global e das rotas comerciais. “Mesmo que alguns possam pensar que o [eventual controle do] fornecimento de petróleo vai favorecer este ou aquele país, em uma economia globalizada, todos perdem”, alertou.
Para ele, o aumento dos custos políticos e econômicos da guerra pode abrir espaço para negociações. “Há espaço [para uma solução diplomática] porque os custos da guerra estão aumentando muito. Acho que isto trará um pouco mais de racionalidade à condução do processo”, concluiu.
O que está em jogo
As declarações do embaixador reforçam o diagnóstico de que uma escalada militar ampla no Irã teria efeitos que extrapolam as fronteiras do país, atingindo mercados de energia, cadeias logísticas e a estabilidade regional. Ao mesmo tempo, a manutenção de serviços básicos e a rápida sucessão no topo do regime, descritas por Veras, sinalizam capacidade de absorção de choques por parte do Estado iraniano – um fator que, segundo ele, dificultaria mudanças rápidas por meio exclusivamente militar.
Com informações de Agência Brasil
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