O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou a retórica em relação a Cuba ao afirmar que espera ter a “honra” de “tomar” a ilha e que poderia fazer “o que quiser” com o país.
As declarações foram feitas a repórteres em Washington, no momento em que EUA e Cuba iniciam conversas para tentar melhorar uma relação historicamente conturbada.
O que Trump disse
Em declarações a jornalistas no Salão Oval, Trump afirmou: “Acredito que terei a honra de tomar Cuba. Essa é uma grande honra. Tomar Cuba de alguma forma”. Em seguida, acrescentou: “Quero dizer, se eu a libero, se eu a tomo. Acho que posso fazer o que quiser com ela. Vocês querem saber a verdade”.
Um dia antes, ao falar com a imprensa a bordo do Air Force One, Trump disse que sua equipe estava em contato com Havana, mas indicou que outras prioridades de política externa seguiriam na frente: “Estamos conversando com Cuba, mas vamos resolver o Irã antes de Cuba”.
Negociações em curso e o que está na mesa
Segundo o jornal The New York Times, citando quatro pessoas com conhecimento direto das tratativas, a saída do presidente cubano Miguel Díaz-Canel é um dos principais objetivos dos EUA nas conversas bilaterais. De acordo com a publicação, Washington sinalizou a negociadores cubanos que Díaz-Canel deveria deixar o cargo, mas teria deixado os próximos passos a cargo de Havana. O governo norte-americano não detalhou oficialmente essas posições.
Tradicionalmente, Cuba rejeita qualquer interferência externa em seus assuntos internos e considera propostas desse tipo um obstáculo para qualquer entendimento. As negociações, ainda em estágio inicial, ocorrem em meio a desconfianças acumuladas ao longo de décadas, desde a Revolução de 1959 e episódios como a Crise dos Mísseis de 1962.
Havana reage e cobra respeito à soberania
Miguel Díaz-Canel, 65 anos, que sucedeu os irmãos Fidel e Raúl Castro na Presidência em 2018, afirmou que espera que o diálogo com Washington ocorra “sob princípios de igualdade e respeito pelos sistemas políticos de ambos os países, soberania e autodeterminação”. O governo cubano tem reiterado que não aceitará condicionantes considerados ingerência nos rumos políticos internos da ilha.
As falas de Trump, associadas a uma agenda de pressão máxima, foram recebidas em Havana como sinal de endurecimento. Mesmo no auge da confrontação durante a Guerra Fria, Washington manteve o compromisso de não invadir a ilha nem apoiar invasões, como parte do acordo com a União Soviética que encerrou a crise de 1962 — um pacto que segue como referência histórica sensível para ambos os lados.
Crise econômica e energia sob racionamento
As declarações chegam em um momento de severa crise econômica em Cuba, agravada por dificuldades no abastecimento de petróleo. Autoridades da ilha relatam que as remessas foram drasticamente reduzidas, o que forçou um racionamento de energia que se traduz em longos apagões e paralisação parcial de atividades produtivas. Nesta semana, a rede elétrica chegou a colapsar, deixando grande parte do país sem luz por horas.
O governo cubano atribui o quadro a medidas de pressão de Washington, incluindo a interrupção de remessas e ameaças de sanções a terceiros que vendam petróleo para a ilha. O impacto direto sobre a vida cotidiana amplia o desgaste social e econômico, enquanto o país busca fontes alternativas de fornecimento e tenta reorganizar sua matriz energética.
Base legal e limites históricos à ação dos EUA
Até o momento, a Casa Branca não apresentou a base legal para qualquer intervenção direta em Cuba. Especialistas lembram que qualquer passo nessa direção esbarraria não só em restrições jurídicas e compromissos históricos, como também em forte resistência internacional. A referência ao acordo que encerrou a Crise dos Mísseis de 1962 permanece como um fator de contenção relevante.
Enquanto a retórica escala, diplomatas de ambos os países procuram manter as portas abertas para negociações discretas. O desafio será conciliar demandas políticas máximas com medidas práticas que aliviem a crise econômica cubana e reduzam tensões regionais — sem romper linhas vermelhas históricas que moldaram a relação EUA–Cuba por mais de seis décadas.
Com informações de Agência Brasil
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