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Crise na Argentina: corrupção e queda na economia desafiam governo de Milei

Crise na Argentina: corrupção e queda na economia desafiam governo de Milei

Com a popularidade em baixa e escândalos envolvendo aliados próximos, o presidente ultraliberal enfrenta seu pior momento econômico e político desde o início do mandato.

O governo do presidente argentino Javier Milei atravessa um período de forte turbulência. A combinação de uma economia ainda patinando, a volta da aceleração inflacionária e o surgimento de escândalos de corrupção internos colocou a Casa Rosada em seu momento mais delicado até agora.

Para um governo que se elegeu com a promessa de austeridade rigorosa e combate aos privilégios políticos (a chamada “casta”), os desafios de 2026 mostram que estabilizar a Argentina exige mais do que apenas cortes de gastos.

Abaixo, detalhamos os principais pontos da crise que o país vizinho enfrenta e como isso afeta a gestão de Milei.

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O retorno da inflação e a retração econômica

A redução da inflação foi, até pouco tempo atrás, a principal vitrine política do governo. Após conseguir baixar as taxas mensais de dois dígitos (no final de 2023) para a casa dos 2% ao longo de 2025, o fantasma da alta dos preços voltou a assombrar os argentinos.

Entre o fim do ano passado e o início de 2026, os índices voltaram a subir, atingindo 3,4% apenas em março deste ano. O impacto foi sentido rapidamente pelo governo. Em uma rede social, o próprio presidente Milei quebrou o tom otimista e reconheceu o problema:

O dado é ruim.”

Junto com a inflação, o país lida com o encolhimento de sua economia. Em fevereiro, a atividade econômica geral retraiu 2,6% em comparação a janeiro. Se olharmos para o acumulado dos últimos 12 meses, a queda chega a 2,1%.

Indústria enfraquecida e o alerta dos especialistas

O dado que mais preocupa os economistas é o da produção industrial, que despencou 4% em fevereiro e acumula uma baixa severa de 6,1% em 12 meses.

Para o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), Paulo Gala, o plano econômico de Milei é simplista e não ataca a raiz da crise. Ele aponta os seguintes fatores de risco para o futuro do país:

  • Falta de confiança na moeda: A população argentina continua precificando contratos em dólares. Como a moeda local (o peso) não tem credibilidade, qualquer instabilidade faz a inflação acelerar.
  • Peso sobrevalorizado: A política atual tem encarecido a moeda argentina de forma artificial, o que prejudica as exportações da indústria nacional.
  • Desindustrialização: A abertura comercial abrupta promovida pelo governo concorre de forma desleal com as fábricas locais, empurrando o país para ser apenas um exportador de matérias-primas agrícolas.
  • Dívida em dólares: Para segurar o valor do peso, o governo tem feito novos empréstimos internacionais em dólares, o que agrava o endividamento externo.

Gala é categórico sobre os riscos dessas medidas para a base produtiva do país:

Esse mergulho da atividade manufatureira é fatal para o país porque esse setor é responsável por aumento de produtividade, por ganhos tecnológicos. Esse dado da indústria é muito ruim. Essa abertura comercial violenta que o Milei tem feito também destrói o pouco que restou de indústria na Argentina. Não está descartado um cenário de recessão e, possivelmente, nova crise cambial.”

Escândalos de corrupção e a quebra da promessa “anticasta”

A paciência da população com a economia difícil poderia durar mais se o governo mantivesse sua imagem de integridade intacta. No entanto, o surgimento de denúncias de corrupção agravou a queda de popularidade de Milei.

O caso mais notório envolve o atual chefe de gabinete do presidente, Manuel Adorni. Ele é investigado por suposto enriquecimento ilícito, precisando explicar à Justiça a realização de viagens de luxo e a compra e reforma de imóveis que seriam incompatíveis com seu salário oficial.

A decepção refletiu diretamente nas pesquisas de opinião:

  • Um levantamento da Atlas Intel divulgado no fim de abril apontou que a reprovação de Milei bateu a marca de 63%, contra apenas 35% de aprovação.
  • Uma pesquisa da consultoria Zentrix mostrou que 66,6% da população sente que a promessa “anticasta” e anticorrupção foi quebrada. O estudo revelou ainda que a corrupção passou a ser a maior preocupação do país, superando até mesmo o desemprego e a inflação.

O cientista político Leandro Gabiati explica o peso desse desgaste:

Esse governo colocou a pauta da corrupção como uma política de Estado. Quando se observa que há casos envolvendo alguns funcionários do governo, como é o caso do chefe de gabinete, que seria uma espécie de primeiro-ministro, isso aí afeta a imagem do governo, desgasta o governo e cria problemas.”

Nota de crédito em alta e a falta de oposição

Apesar do cenário interno conturbado, Milei ainda possui alguns trunfos. O primeiro deles é a desorganização de seus adversários políticos. Gabiati ressalta que, embora a eleição presidencial de 2027 ainda esteja longe no radar, a oposição argentina não conseguiu se estruturar para ser uma alternativa clara e viável para o eleitorado.

Além disso, o mercado financeiro internacional enviou um sinal positivo. A consultoria de riscos Fitch Ratings elevou a nota de crédito da Argentina de CCC+ para B- (com perspectiva estável). Essa melhora na “nota” do país ocorre porque a agência reconhece que Milei conseguiu equilibrar as contas públicas (situação fiscal) e melhorar a balança comercial externa, notícia que fez a bolsa de Buenos Aires operar em alta nesta semana.

Conflitos com a imprensa na Casa Rosada

Para completar o cenário de tensões, o governo Milei tem adotado uma postura de confronto direto com a mídia. No final de abril, o Executivo proibiu a entrada de jornalistas na Casa Rosada, afetando o trabalho de cerca de 60 profissionais de imprensa sob a justificativa de que emissoras estariam filmando áreas restritas sem autorização (o que as empresas negam).

A medida gerou duras críticas internacionais por violação à liberdade de imprensa. Após a repercussão negativa, o governo recuou parcialmente e reabriu as portas da sede do poder para os jornalistas na última segunda-feira (3), embora ainda mantenha fortes restrições à circulação dos profissionais no edifício.

Com informações de Agência Brasil


Alfredo R. Martins Jr. é jornalista e a voz principal do Jornal O Paranaense. Formado em Comunicação Social com especializações em Marketing e Gestão de Comunicação, possui mais de 17 anos de experiência na análise do cenário paranaense. Sua missão é traduzir a complexidade da política, economia e cultura do estado em informação clara, acessível e relevante para o leitor.
Alfredo R. Martins Jr.
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