(Foto: Tânia Rêgo)
Casa Branca garante 100 anos de controle sobre petróleo da Venezuela
Acordo repassa 21% das reservas do país sul-americano para empresa ligada ao Pentágono após sequestro de Nicolás Maduro
A administração de Washington assumiu o controle direto de 21% das reservas petrolíferas da Venezuela, alterando a dinâmica de fornecimento no mercado energético global. A operação transfere a gestão de 17 campos de extração para a Nabep (North American Blue Energy Partners), corporação privada que possui 35% de seu capital atrelado ao Departamento de Guerra dos Estados Unidos.
O movimento ocorre em um cenário de restrição de oferta, impulsionado por conflitos no Oriente Médio, e visa estabilizar os custos de combustíveis para os consumidores norte-americanos.
A Casa Branca estabeleceu cláusulas estritas de exclusividade sobre o insumo. O Departamento de Estado assegurou o direito de comprar 20% de toda a produção atual e futura a preço de custo de operação. As regras firmadas exigem que a maioria do conselho de administração da operadora seja composta por cidadãos estadunidenses, garantindo poder de veto ao governo norte-americano sobre qualquer nomeação.
Divergências contratuais e repasse inédito
Os termos divulgados pela gestão norte-americana entram em choque com os anúncios oficiais de Caracas. A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, havia comunicado uma parceria com limite de 25 anos. O documento ratificado por Washington, no entanto, estabelece uma concessão de um século para a exploração comercial de 65 bilhões de barris.
A estrutura do novo controle energético se sustenta em condições sem precedentes na história do país:
- Duração da concessão fixada em 100 anos para 17 campos de petróleo.
- Compra garantida de 20% da extração cotada a preço de custo operacional.
- Direito de preferência absoluto na aquisição dos 80% restantes da extração comercial.
- Poder de veto governamental direto sobre a formação do conselho da empresa operadora.
O formato da negociação levantou questionamentos técnicos entre analistas do setor de energia. A legislação petrolífera venezuelana exige licitação pública para a oferta de campos de exploração, etapa ignorada após as mudanças legais promovidas por decreto. O especialista venezuelano Francisco Rodríguez aponta que a manobra subverte os padrões históricos de tributação estatal.
“As concessões de 100 anos concedidas pelo governo venezuelano são duas vezes mais longas do que as concessões mais longas já concedidas pelo país desde o início da exploração de petróleo.”
Os cálculos de arrecadação confirmam a defasagem apontada pelos pesquisadores. A gestão interina projeta US$ 100 bilhões em investimentos e US$ 209 bilhões em impostos. A receita fiscal gerada será de apenas US$ 3,22 por barril, o equivalente a 4,7% do preço atual da commodity, índice inferior às taxas cobradas na década de 1920.
Pressão geopolítica e retomada da Doutrina Monroe
A assinatura da concessão sucede o sequestro do presidente Nicolás Maduro, executado no início do ano por forças militares da Casa Branca. Semanas após a remoção do chefe de Estado, Caracas alterou sua Lei do Petróleo, permitindo que corporações estrangeiras atuassem como acionistas majoritárias nas reservas. A manobra atende diretamente aos planos da administração Trump de reafirmar a Doutrina Monroe, eliminando a presença operacional de concorrentes da Rússia, China e Cuba no continente.
O controle sobre as reservas latino-americanas funciona como uma barreira de contenção contra a crise gerada pela guerra no Irã e pelo bloqueio do Estreito de Ormuz. A alta nos preços internos dos combustíveis pressionava a base republicana às vésperas da eleição legislativa. Com a intervenção e o aporte de US$ 1 bilhão da Nabep, a extração nesses campos saltou de 18 mil para 200 mil barris diários.
Divisão interna nas bases chavistas
O alinhamento estratégico com Washington fraturou a base de apoio político venezuelana. Organizações como a Frente Popular Antiimperialista realizaram atos nas ruas de Caracas, classificando a entrega das reservas como uma política de subordinação econômica. O Movimento Revolucionário Tupamaro publicou uma nota oficial rejeitando as justificativas da presidência interina.
“Não basta anunciar contratos, nem repetir discursos vazios de ‘desenvolvimento’ e ‘investimentos’ se por detrás se esconde a mesma lógica de sempre: a subordinação da nossa riqueza a interesses estrangeiros.”
Em contraponto, o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) defende a concessão como o único mecanismo de engenharia financeira capaz de reativar a economia local. Nicolás Maduro Guerra, filho do líder sequestrado, publicou registros em que o próprio pai condicionava a melhora econômica ao retorno do capital norte-americano. A meta imediata da gestão interina é elevar a produção nacional para 1,5 milhão de barris diários, tentando reverter as quedas sequenciais registradas pela OPEP nos últimos anos.
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Com informações de Agência Brasil
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