(Foto: Hendrik Schmidt)
Pais estão menos envolvidos na criação dos filhos, revela novo estudo
Levantamento divulgado nesta semana mostra um retrocesso no envolvimento dos pais, o que exige adaptações urgentes na rotina das famílias brasileiras.
O despertador toca antes do amanhecer para milhões de mulheres que, além de cumprirem suas jornadas de trabalho fora de casa, assumem quase sozinhas o preparo do café da manhã, a organização da mochila escolar, o banho e o cuidado emocional das crianças. Esse cenário de exaustão e acúmulo de funções está se agravando rapidamente. Um novo levantamento, repercutido pela Agência Brasil, expõe uma realidade amarga e preocupante: os pais estão participando cada vez menos da criação e do cuidado diário dos filhos.
Para as mães, isso significa muito mais do que mero cansaço físico. A falta de divisão igualitária de tarefas resulta em menos horas de sono, maior dificuldade de ascensão profissional e um esgotamento mental que atinge níveis alarmantes em todo o país. O estudo joga luz sobre um comportamento que parecia estar caminhando para a modernização na última década, mas que agora demonstra fortes sinais de estagnação. A promessa da parentalidade dividida de forma justa e real ainda é uma miragem na maioria absoluta dos lares.
A realidade das famílias paranaenses frente ao distanciamento
Para compreender a dimensão da ausência familiar no estado, basta observar o reflexo nos dados oficiais dos cartórios. A Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado do Paraná (Arpen-PR) aponta anualmente milhares de certidões de nascimento emitidas sem o nome do pai, um número que costuma bater recordes a cada novo balanço. Contudo, o distanciamento abordado pela recente pesquisa vai além do abandono de registro formal: trata-se do pai que reside na mesma casa, mas se ausenta deliberadamente das obrigações básicas de cuidado.
Esse cenário sobrecarrega diretamente a rede de apoio estadual e municipal. Com a transferência quase integral da responsabilidade de criação para a mulher, cresce exponencialmente a demanda por vagas em creches públicas e escolas em período integral nos municípios do Paraná. Essas mães precisam desesperadamente de redes de apoio externas para conseguir trabalhar e sustentar seus lares.
A estrutura social atual cobra um preço alto das famílias chefiadas unicamente por mulheres, refletindo de maneira direta nas taxas de desemprego feminino e na disparidade salarial que ainda assombra o mercado de trabalho local.
Legislação e o peso histórico da maternidade solitária
O papel de “cuidador primário” ainda é imposto à mulher de forma severa, uma visão que encontra raízes profundas na própria legislação brasileira e na cultura corporativa do país. Historicamente, as leis trabalhistas trataram o nascimento e o desenvolvimento de uma criança como eventos predominantemente maternos, eximindo o homem da obrigação central do cuidado, especialmente nos primeiros dias de vida do bebê.
Enquanto a licença-maternidade garante 120 dias de afastamento (podendo chegar a 180 em alguns formatos), a licença-paternidade padrão no Brasil é de apenas cinco dias, estabelecida de forma provisória pela Constituição Federal de 1988 e nunca ampliada de forma definitiva e universal. Apenas funcionários de empresas cadastradas no programa federal Empresa Cidadã têm o direito de estender esse prazo curto para 20 dias.
Especialistas em desenvolvimento infantil e sociologia apontam que diversos fatores sistêmicos contribuem para essa ausência observada no levantamento atual:
- Falta de incentivo do mundo corporativo para que os homens priorizem a rotina familiar sem sofrerem penalizações veladas na carreira.
- A persistência de uma cultura estrutural que ainda aplaude o pai como um mero “ajudante” sazonal, e não como um responsável legal, financeiro e afetivo em tempo integral.
- Escassez de políticas públicas focadas especificamente no engajamento paterno durante a primeira infância.
- A normalização irresponsável do sacrifício feminino pela sociedade, que espera que a mãe sempre “dê conta de tudo”.
A urgência da divisão igualitária no cuidado infantil
Mudar essa realidade estrutural exige muito mais do que a simples boa vontade individual dentro de casa; é necessária uma profunda transformação na forma como o tempo gasto com os filhos é valorizado pela nossa sociedade. O envolvimento paterno ativo e diário não serve apenas para aliviar a exaustão física e mental das mulheres. Ele é considerado um pilar fundamental para o pleno desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças.
Estudos paralelos na área de psicologia já documentaram exaustivamente que crianças que contam com a presença ativa e o cuidado de ambas as figuras parentais tendem a apresentar maior segurança emocional e melhor desempenho na vida escolar.
O fato de os pais estarem recuando nessa responsabilidade primária, conforme aponta a nova pesquisa em destaque, acende um alerta vermelho de emergência para educadores, empresas, formuladores de políticas públicas e, principalmente, para a saúde do tecido familiar nas próximas gerações.
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O que você precisa saber em resumo
- Novo estudo indica que os pais estão reduzindo seu envolvimento nas tarefas diárias e na criação ativa dos filhos dentro de casa.
- A ausência paterna na divisão de tarefas destrói a saúde mental das mães e pressiona serviços públicos no Paraná, aumentando a urgência por vagas em creches.
- Fatores estruturais, como a licença-paternidade defasada de apenas cinco dias e a cultura machista, dificultam a responsabilização do homem no cuidado primário.
Com informações de Agência Brasil
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