(Foto: Taylor Edgerton)
Progressistas e minorias garantem maioria democrata nas eleições dos EUA
Renovação de lideranças afasta imagem elitista do partido e conquista o controle do Congresso
O Partido Democrata garantiu a maioria no Senado e na Câmara dos Representantes durante as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. A vitória consolida a força de lideranças jovens e de minorias étnicas e religiosas em disputas diretas contra o Partido Republicano.
O resultado impõe uma dura derrota legislativa a Donald Trump, retomando o controle de estados historicamente conservadores e definindo um novo perfil para a legenda oposição.
Com o domínio das casas legislativas, a nova composição altera o equilíbrio de poder em Washington. O avanço de candidatos fora do núcleo tradicional afeta diretamente a aprovação de orçamentos, o direcionamento da política externa e a gestão de programas de saúde pública, como o Medicare.
A pauta do Congresso agora desloca o foco para as demandas da classe trabalhadora, confrontando os recentes cortes de impostos para bilionários e as políticas restritivas de imigração.
Ruptura com o passado e novas bases
A legenda democrata enfrentava um forte desgaste desde a derrota nas eleições presidenciais de 2024, marcada pela forte associação com as elites econômicas. O cientista político Juliano Machado Pires aponta que a insatisfação do eleitorado com o partido remonta ao governo de Barack Obama (2009-2017).
“A população tinha muitas expectativas com o governo Obama. Com a crise dos bancos, em 2008, Obama salvou os bancos, mas não salvou a hipoteca da população. Uma parcela das pessoas se sentiu traída e ficou com a sensação de que os dois partidos davam no mesmo na hora de proteger os direitos econômicos das pessoas”, explicou Pires à Agência Brasil.
Para reverter esse quadro, o pleito atual priorizou representantes com uma agenda focada na saúde universal e no bem-estar do trabalhador local. A professora de relações internacionais Camila Vidal, da UFSC, reforça que esse perfil de parlamentar resgata uma tradição de diálogo popular que havia sido abandonada pela sigla nas últimas décadas.
Pioneirismo e diversidade nos estados
O resultado das urnas estabeleceu marcos políticos inéditos em diferentes regiões do país. A flexibilidade dos dirigentes locais para escolher candidatos conectados com a realidade regional resultou na eleição de perfis pioneiros:
- Georgia: Keisha Lance Bottoms tornou-se a primeira mulher negra eleita governadora nos EUA.
- Novo México: Deb Haaland conquistou o posto de primeira governadora indígena.
- New Hampshire: Chris Papas garantiu a vaga como o primeiro senador abertamente homossexual.
- Texas: Gina Hinojosa quebrou décadas de hegemonia republicana ao ser eleita a primeira governadora latina da região.
“Esta vitória é para o cuidador que não tem condições de arcar com despesas de saúde e precisa que a Georgia finalmente amplie o Medicare”, disse Keisha Bottoms em seu discurso.
Segundo James N. Green, professor de história da Universidade de Brown, essa diversidade de candidaturas atraiu uma nova base de eleitores. O movimento foi impulsionado pela rejeição às diretrizes do atual governo federal, facilitando o rompimento de eleitores moderados com o presidente.
O avanço progressista no conservadorismo religioso
No Texas, o candidato James Talarico, de 37 anos, venceu a disputa pelo Senado e rompeu um domínio conservador de quase quatro décadas. Filho de pastor e seminarista presbiteriano, ele uniu o discurso cristão à defesa da justiça social, direcionando críticas severas à política anti-imigração e à concentração de renda.
“O presidente dos EUA disse que eu insultei Jesus. Sabe o que insulta Jesus? Deixar os pobres sem assistência social enquanto corta impostos de bilionários. Sabe o que insulta Jesus? Deportar o estrangeiro e separar mães de seus bebês”, discursou Talarico.
A tensão sobre o papel internacional do país definiu a eleição em Michigan. Abdul El-Sayed tornou-se o primeiro muçulmano eleito para o Senado americano, estruturando sua campanha em críticas abertas aos gastos dos Estados Unidos com ajuda militar.
“Tentam rotular você como alguém cheio de ódio se você acredita que crianças palestinas deveriam poder crescer na terra de seus antepassados sem serem assassinadas com o dinheiro dos nossos impostos”, afirmou o senador eleito.
No próprio dia da eleição, o governo anunciou a suspensão do envio de US$ 4 bilhões em apoio bélico a Israel. Especialistas indicam que a medida de última hora configurou uma tentativa de conter a fuga de votos para candidaturas críticas ao financiamento militar estrangeiro.
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Com informações de Agência Brasil
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