(Foto: Kevin Lamarque)
O novo sonho americano é morar fora: emigração de cidadãos dos EUA bate recorde histórico
Impulsionados pelo alto custo de vida, tensões políticas e busca por segurança, americanos deixam o país em níveis inéditos e transformam nações como Portugal e República Checa em novos refúgios.
O tradicional “sonho americano” parece ter mudado de endereço. Em um movimento sem precedentes na história recente, cidadãos dos Estados Unidos estão arrumando as malas e deixando o próprio país em números recordes. O destino? Regiões que ofereçam um custo de vida mais acessível, maior segurança e um ritmo de vida menos exaustivo para as famílias.
De acordo com um levantamento detalhado do The Wall Street Journal (WSJ), o cenário aponta para uma mudança estrutural e social profunda na sociedade norte-americana. O fenômeno, que vem crescendo de forma silenciosa há anos, agora atinge proporções que impactam globalmente tanto os países de origem quanto os de destino.
Um êxodo inédito desde a Grande Depressão
A estatística mais reveladora dessa nova realidade é o saldo migratório. No ano passado, pela primeira vez desde a Grande Depressão da década de 1930, os Estados Unidos registraram mais pessoas saindo do país do que entrando.
Segundo estimativas da Brookings Institution, um respeitado grupo de reflexão sobre políticas públicas, cerca de 150 mil pessoas deixaram os EUA no último ano, e a tendência é que esse número continue a subir. Embora o governo de Washington não possua estatísticas perfeitamente centralizadas desde a administração Eisenhower, dados cruzados de mais de 50 países — como autorizações de residência e compra de imóveis — confirmam que os americanos estão “votando com os pés”, expressando sua insatisfação por meio da mudança de país.
Os motivos por trás da fuga em massa
A onda de emigração acelerou significativamente nos últimos anos, recebendo de alguns analistas o apelido de “Donald Dash” (fuga, em inglês), devido ao disparo nos números durante o segundo mandato do presidente Donald Trump. No entanto, as motivações vão muito além da política partidária.
As principais razões citadas pelas famílias que decidem cruzar as fronteiras incluem:
- Fatores econômicos: O crescimento acelerado do custo de vida nas grandes cidades americanas.
- Segurança e bem-estar: A preocupação constante com crimes violentos e a desilusão com o clima de turbulência social.
- Saúde e educação: A atração pelo forte sistema de proteção social, cuidados de saúde acessíveis e educação de qualidade, características marcantes da Europa.
- Flexibilidade profissional: A consolidação do teletrabalho, que permite receber em dólar enquanto se vive em países mais baratos.
O desejo de partir é especialmente forte entre as mulheres. Uma pesquisa do Instituto Gallup, realizada em 2025, revelou que 40% das americanas com idades entre 15 e 44 anos gostariam de viver fora dos EUA de forma permanente.
Portugal e Europa como os novos refúgios
Atualmente, estima-se que entre 4 milhões e 9 milhões de norte-americanos vivam fora de sua terra natal. O México, por sua proximidade, abrigava mais de 1,5 milhão de americanos em 2022. No entanto, é o continente europeu que tem protagonizado o maior crescimento percentual de novos residentes vindos dos EUA.
O impacto em alguns países europeus é impressionante:
- Portugal: O número de cidadãos americanos vivendo no país aumentou mais de cinco vezes desde a pandemia de covid-19.
- República Checa, Espanha e Países Baixos: As comunidades de americanos praticamente duplicaram na última década.
- Alemanha e Irlanda: Ambos os países registraram, no ano passado, a entrada de mais americanos do que a saída de seus próprios cidadãos para os EUA.
“Os salários são mais elevados nos Estados Unidos, mas há mais qualidade de vida na Europa.” — Chris Ford, de 41 anos, justificando a mudança com a família para Berlim.
O recorde de renúncia à cidadania americana
A insatisfação com o rumo do país atingiu um nível em que muitos estão dispostos a abrir mão do próprio passaporte. O Wall Street Journal relata que as autoridades norte-americanas estão acumulando pedidos de renúncia à cidadania. Em 2024, o número de solicitações cresceu quase 50% em relação ao ano anterior, com projeções de novas quebras de recorde.
Em contrapartida, a busca por passaportes europeus disparou. O interesse dos americanos pela nacionalidade britânica atingiu o patamar mais alto desde 2004, e os pedidos de cidadania irlandesa também bateram recordes históricos.
Gentrificação e a revolta dos moradores locais
Se para os americanos a mudança representa alívio e qualidade de vida, para a população dos países receptores a história é mais complexa. A chegada massiva de estrangeiros com alto poder aquisitivo e salários em dólar tem gerado uma forte pressão inflacionária, especialmente no setor imobiliário.
Em destinos populares de teletrabalho como Bali, Colômbia e Tailândia, já ocorrem protestos contra a gentrificação — processo que encarece o custo de vida e expulsa os moradores locais de seus próprios bairros. Na Península Ibérica, o cenário é de tensão:
- Em Portugal, cerca de 58% dos compradores estrangeiros de imóveis são dos EUA, o que fez os preços das casas duplicarem em alguns bairros históricos de Lisboa em apenas cinco anos.
- Na Espanha, o debate sobre como proteger os moradores locais ganhou as ruas, ilustrado por pichações em Barcelona com mensagens diretas aos recém-chegados.
“Nômades digitais, vão para casa!” — Grafite registrado em um muro de Barcelona, refletindo a insatisfação local.
A nova diáspora americana revela um mundo hiperconectado, onde a busca por qualidade de vida redefine fronteiras. No entanto, o fenômeno cobra um preço alto dos países anfitriões, exigindo novas políticas públicas para equilibrar o desenvolvimento econômico com o direito à habitação da população local.
Com informações de Agência Brasil
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