Família havia retornado ao Sul do país apenas para buscar pertences quando a casa foi destruída. Outro filho do casal sobreviveu e está hospitalizado. Itamaraty condenou “violações inaceitáveis” ao acordo de trégua.
O que seria uma rápida viagem para recuperar roupas e pertences pessoais terminou em tragédia para uma família com forte ligação ao Brasil. Dois brasileiros — Manal Jaafar, de 47 anos, e seu filho, Ali Ghassan Nader, de 11 anos — morreram no último domingo (26) após um bombardeio das forças armadas de Israel destruir a casa onde viviam no distrito de Bint Jbeil, no Sul do Líbano.
O pai do menino e marido de Manal, o libanês Ghassan Nader, de 57 anos, também não sobreviveu ao ataque. Um outro filho do casal, Kassam Nader, de 21 anos (também brasileiro), ficou ferido, foi hospitalizado e recebeu alta nesta terça-feira (28).
Até o momento, as equipes de resgate não conseguiram retirar os corpos dos escombros da residência, que foi totalmente destruída. A morte dos brasileiros foi confirmada oficialmente pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Itamaraty) na noite de segunda-feira (27).
A dinâmica da tragédia e a quebra do cessar-fogo
A família havia fugido do Sul do Líbano no dia 2 de março, no início da atual fase do conflito, buscando refúgio na capital, Beirute. Motivados pelo anúncio de um acordo de cessar-fogo no dia 16 de abril, eles decidiram retornar temporariamente a Bint Jbeil no sábado (25) apenas para buscar o restante de suas roupas.
O irmão mais novo de Ghassan, Bilal Nader, que vive em Foz do Iguaçu (PR), relatou os momentos que antecederam o ataque. “Ele esperou sete ou oito dias após o cessar-fogo. Falou que ia só juntar as coisas e voltar. Ele até estava com o carro ligado, com o porta-malas carregado, mas acabou dormindo na casa para voltar no domingo”, contou Bilal à Agência Brasil.
Bilal ressaltou que a residência ficava em uma área predominantemente civil e que o irmão era apenas um agricultor de oliveiras, sem qualquer envolvimento político ou militar.
Vítimas viveram no Paraná por 15 anos
A família Nader tinha raízes profundas no Brasil. Eles viveram por mais de 15 anos em Foz do Iguaçu (entre 1995 e 2008), período no qual Manal teve seus filhos e adquiriu a nacionalidade brasileira. Ghassan trabalhou como comerciante de eletroeletrônicos e era uma figura ativa e respeitada na comunidade árabe paranaense.
“Ele era um ativista humanitário e intelectual. Formado em economia, chegou a escrever um livro sobre a crise global. O plano dele ao voltar ao Líbano era ter uma vida estável e leve, dedicando-se aos estudos”, relatou o jornalista libanês naturalizado brasileiro Ali Farhat, amigo da família.
O Líbano abriga hoje a maior comunidade de brasileiros no Oriente Médio, com cerca de 22 mil cidadãos residentes no país (dados de 2023).
Condenação diplomática do Brasil
Em nota oficial, o Itamaraty informou que a Embaixada do Brasil em Beirute está prestando assistência consular ao filho sobrevivente e aos familiares.
O governo brasileiro subiu o tom contra a ação militar, classificando o ataque como mais um exemplo das “reiteradas e inaceitáveis violações” ao cessar-fogo. A diplomacia pontuou que essas ofensivas já resultaram na morte de dezenas de civis (mulheres e crianças), de uma jornalista e de dois integrantes da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL).
“O Brasil reitera veemente condenação a todos os ataques perpetrados durante a vigência do cessar-fogo, tanto por parte das forças israelenses quanto do Hezbollah, e condena as demolições de residências e de outras estruturas civis no Sul do Líbano“, diz trecho do documento.
O governo brasileiro também pediu o cumprimento imediato da resolução do Conselho de Segurança da ONU e a retirada completa das tropas de Israel do território libanês.
Contexto de guerra e impasses na região
A morte da família brasileira expõe a fragilidade da trégua no Oriente Médio. A atual fase do conflito teve início em outubro de 2023, quando o Hezbollah (grupo político-militar xiita libanês) passou a atacar o norte de Israel em solidariedade aos palestinos na Faixa de Gaza.
Apesar de um acordo costurado no meio deste mês, denúncias de violações são mútuas. A Casa Branca declarou que Israel possui o direito de atacar o Hezbollah “em legítima defesa” para conter ofensivas iminentes. No entanto, o governo israelense também já manifestou a intenção de ocupar todo o Sul do Líbano até o Rio Litani, a cerca de 30 km da fronteira, com o objetivo declarado de criar uma “zona de segurança”.
A Agência Brasil procurou a Embaixada de Israel em Brasília para comentar o bombardeio à residência da família brasileira, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

Com informações de Agência Brasil
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