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Faltará trigo? Safra do Paraná prevê pior déficit de abastecimento da história

Faltará trigo? Safra do Paraná prevê pior déficit de abastecimento da história

(Foto: Canva)

Faltará trigo? Safra do Paraná prevê pior déficit de abastecimento da história


Com previsão de um déficit histórico na safra 2026/27, moinhos lutam contra margens apertadas e custos que logo chegam às mesas das famílias.

Ir à padaria ou ao supermercado no Paraná vai ficar mais caro nas próximas semanas. A farinha de trigo, ingrediente central de pães, bolos e massas, está no centro de uma escalada de preços que tem origem nas lavouras do estado. Com uma oferta de grãos que despencou muito além da necessidade das indústrias, os repasses de custos ao longo da cadeia produtiva já começaram a acontecer, alterando o valor final dos itens básicos da alimentação diária da população.

Os reflexos no estado do Paraná e no mercado nacional

O que acontece nos campos paranaenses ressoa em milhares de empresas pelo país, já que o estado responde por 30% da produção nacional de farinha de trigo. Quando o cereal fica escasso aqui, os moinhos locais e nacionais precisam buscar o grão na Argentina ou no Rio Grande do Sul, adicionando pesados custos logísticos. A inflação gerada pela falta de matéria-prima eleva as despesas de grandes indústrias alimentícias e pequenas confeitarias regionais, gerando um efeito dominó imediato no comércio.

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O abismo produtivo de 1,6 milhão de toneladas

Os números do ciclo 2026/27, divulgados recentemente, revelam a verdadeira dimensão da crise agrícola. A expectativa oficial é que as lavouras paranaenses entreguem apenas 2,2 milhões de toneladas de trigo este ano. O problema central é que a capacidade de moagem dos moinhos instalados no estado exige 3,85 milhões de toneladas anuais, de acordo com as estimativas rigorosas da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo).

Esse rombo de aproximadamente 1,6 milhão de toneladas configura o maior déficit de abastecimento da história recente. O Paraná, que atua como um dos maiores celeiros do Brasil, não conseguirá nutrir nem sequer o seu próprio parque industrial moageiro, instaurando um ambiente de alta concorrência pela matéria-prima restante.

A pressão nas margens e o alerta do Sinditrigo-PR

A escassez física do grão traz um descompasso financeiro que corrói a estabilidade das empresas. O aumento do valor pago aos produtores pela matéria-prima, sem o correspondente repasse integral para o preço da farinha vendida ao varejo, tem comprimido violentamente as margens de lucro dos moinhos. Paralelamente, o mercado de farelo de trigo — um subproduto vital gerado durante a moagem — apresenta enfraquecimento comercial, dificultando ainda mais o fechamento das contas.

É um momento que exige do setor atenção redobrada e medidas que preservem a competitividade e a eficiência operacional, sem abrir mão da qualidade.” — Paloma Venturelli, presidente do Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná (Sinditrigo-PR).

Área reduzida e a sombra climática sobre as lavouras

A retração drástica na oferta é o resultado de decisões defensivas tomadas pelos agricultores há meses. Segundo análises da consultoria Safras & Mercado, a área destinada ao trigo no estado encolheu para apenas 740 mil hectares, uma queda de 13,5% em comparação aos 855 mil hectares cultivados no ciclo anterior.

Os principais fatores que motivaram os produtores a recuarem incluem:

  • O encarecimento contínuo de insumos agrícolas importados, especialmente fertilizantes como a ureia.
  • A retração no investimento em tecnologias de cultivo de alta performance por parte de produtores descapitalizados.
  • O receio frente à confirmação do fenômeno El Niño em forte intensidade, que historicamente provoca chuvas na colheita e rebaixa o trigo panificável à categoria de ração animal.A combinação desses fatores deve derrubar a produtividade média por hectare no estado em expressivos 9,5%.

Cotação do grão já sobe no início de agosto

A resposta do setor a esse cenário catastrófico foi imediata. Os indicadores econômicos mostram que apenas na primeira semana de agosto de 2026, o preço médio do cereal pago ao produtor no Paraná acumulou uma alta de 0,61%. O mercado disponível (spot) reflete a cautela de quem tem o grão armazenado nos silos e a urgência aguda de quem precisa comprar.

Embora o percentual mensal pareça modesto à primeira vista, ele é o indicativo de uma reversão de tendência. Quando a matéria-prima encarece antes mesmo do pico tradicional da entressafra, o setor acende o alerta máximo quanto à disponibilidade real do cereal.

Custo da tonelada e a dinâmica de mercado disponível

A elevação nos preços estaduais foi mensurada em detalhes pelo Indicador Cepea/Esalq, focado no trigo tipo pão ou melhorador comercializado no Paraná. Em um curtíssimo intervalo, a realidade financeira dos contratos de compra e venda mudou sensivelmente:

  • Em 3 de agosto: a cotação era de R$ 1.406,32 por tonelada.
  • Em 7 de agosto: o valor saltou para R$ 1.414,46 por tonelada.

Esse nível de oscilação em poucos dias pressiona agressivamente o fluxo de caixa dos moinhos, que se veem obrigados a aceitar lotes mais caros para não interromperem suas linhas vitais de processamento.

Os desdobramentos nas prateleiras e o futuro do setor

Com uma conta que não fecha entre o custo produtivo da farinha e a resistência do varejo em aceitar reajustes, as panificadoras já elaboram novas tabelas para o consumidor. O mercado paranaense avalia realizar repasses fracionados ao longo dos próximos meses, em uma tentativa de mitigar o choque de consumo nas padarias.

O horizonte aponta para um semestre de extrema volatilidade. Enquanto torcem para que o clima não deprecie ainda mais as áreas remanescentes, as indústrias finalizam cálculos de importação, cientes de que trazer trigo de fora os deixará à mercê da variação do dólar e de tarifas portuárias altíssimas.

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O que você precisa saber em resumo

  • O Paraná registrará o maior déficit de sua história, produzindo apenas 2,2 milhões de toneladas contra uma demanda de 3,85 milhões de toneladas calculada pela Abitrigo.
  • Na primeira semana de agosto, o custo do trigo tipo pão no estado avançou para R$ 1.414,46 a tonelada, encarecendo os custos operacionais.
  • O Sinditrigo-PR alerta que moinhos operam no limite, o que significa que reajustes na farinha para padarias e supermercados são inevitáveis a curto prazo.
Faltará trigo? Safra do Paraná prevê pior déficit de abastecimento da história
(Foto: Canva)

Alfredo R. Martins Jr. é jornalista e a voz principal do Jornal O Paranaense. Formado em Comunicação Social com especializações em Marketing e Gestão de Comunicação, possui mais de 17 anos de experiência na análise do cenário paranaense. Sua missão é traduzir a complexidade da política, economia e cultura do estado em informação clara, acessível e relevante para o leitor.
Alfredo R. Martins Jr.
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