Novo levantamento mostra que a crise ambiental deixou de ser uma ameaça para o futuro e já afeta a rotina, a renda e o bem-estar de oito em cada dez cidadãos.
As idas ao supermercado estão mais caras, o calor excessivo tem levado um número maior de pessoas aos postos de saúde, e chegar ao trabalho em dias de temporais se tornou um desafio constante e desgastante. Esses não são problemas isolados, mas o retrato fiel de como as alterações no clima estão punindo a população na vida real.
Segundo um estudo inédito do Aurora Lab e da More in Common, divulgado pela Agência Brasil, 85% das pessoas já notam a interferência da crise climática no seu cotidiano, com quase metade delas classificando esse choque como intenso. Os dados comprovam que o aquecimento global abandonou a teoria e passou a ser um peso prático e diário nas cidades e no interior.
O reflexo direto na rotina e no orçamento das famílias
Para entender a dimensão do problema, as equipes de pesquisa entrevistaram 2.630 participantes a partir de 16 anos em nove capitais brasileiras. Embora o foco fosse mapear a visão sobre a transição energética — a substituição de fontes de energia suja por opções limpas —, as queixas revelaram um cenário imediato de desgaste físico e prejuízos materiais.
A constatação principal é que a população enxerga as alterações climáticas como um risco direto às finanças e à saúde. Os principais problemas listados pelos entrevistados foram:
- Ter que arcar com um custo maior de vida (53%);
- Problemas de saúde física (45%);
- Obstáculos e dificuldades no trajeto até o local de trabalho (40%);
- Adoecimento mental provocado pelas incertezas e desastres (32%);
- Perda de renda (17%);
- Perda do emprego (10%).
A realidade para os paranaenses: da agricultura ao abastecimento urbano
Ainda que o levantamento tenha focado em nove capitais de outras regiões, o sentimento da população espelha com exatidão a realidade do Paraná nos últimos anos. Quando os eventos extremos de clima atingem o nosso estado — reconhecido nacionalmente como um dos maiores polos do agronegócio —, a consequência imediata costuma ser a quebra de grandes safras.
Esse desequilíbrio afeta rapidamente as prateleiras e encarece o preço da comida fresca na região, o que justifica a sensação de aperto no orçamento familiar relatada pela maioria no estudo.
A memória recente também nos traz alertas locais graves. A crise hídrica histórica que castigou Curitiba e a Região Metropolitana entre 2020 e 2021, gerando o racionamento severo de água, é a prova de que as mudanças climáticas já alteram a nossa sobrevivência urbana.
Por conta dessa vulnerabilidade constante, acelerar projetos de matrizes limpas e renováveis se tornou estratégico para o estado, motivando companhias como a Copel a expandirem seus parques de sustentabilidade para garantir a segurança da infraestrutura no longo prazo.
De quem é a responsabilidade por proteger os trabalhadores?
Quando a tempestade alaga a rua interrompendo o ônibus ou o calor extremo afeta quem trabalha debaixo de sol, 67% dos entrevistados acreditam que é o governo quem deve garantir a proteção dos trabalhadores. Apenas 7% apontam que essa deveria ser uma tarefa primária dos empregadores.
Essa terceirização da responsabilidade trabalhista para as mãos do Estado chamou a atenção e gerou apreensão entre os pesquisadores do setor.
“Também é um dado muito preocupante, porque ele tira ou não coloca a responsabilidade em cima dos empregadores. Cada vez mais a gente vai ter eventos climáticos extremos e eles têm um papel muito importante em garantir a proteção dos trabalhadores no processo de transição também“, alerta Gabriela Vuolo, diretora-executiva do Aurora Lab.
Apesar do tom de urgência e das dificuldades relatadas, o brasileiro se mostra confiante na ciência e otimista com os próximos passos. A esmagadora maioria (93%) sabe que os métodos de produção da sociedade precisam mudar com urgência. E para 67% dos participantes, essa transição para uma economia verde não será ruim; pelo contrário, trará bons frutos para a classe trabalhadora, impulsionando a abertura de vagas de emprego e ajudando a mitigar as desigualdades sociais.
O que você precisa saber em resumo
- A imensa maioria (85%) já sente os danos das mudanças climáticas na vida real, relatando principalmente o encarecimento do custo de vida e o surgimento de problemas de saúde.
- O cidadão acredita que o governo é o principal encarregado de proteger a população trabalhadora durante crises climáticas, retirando o foco das empresas e dos empregadores.
- No Paraná, os prejuízos com eventos climáticos extremos batem à porta via encarecimento dos alimentos, devido ao impacto nas safras, e no risco histórico de desabastecimento urbano, como a última grande crise de água em Curitiba.
Com informações de Agência Brasil
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