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Criptomoedas, rifas e influenciadores: a anatomia do esquema de R$ 1,6 bilhão desarticulado pela PF no Paraná e mais 8 estados

Criptomoedas, rifas e influenciadores: a anatomia do esquema de R$ 1,6 bilhão desarticulado pela PF no Paraná e mais 8 estados

(Foto: Divulgação PF)

Criptomoedas, rifas e influenciadores: a anatomia do esquema de R$ 1,6 bilhão desarticulado pela PF no Paraná e mais 8 estados


Organização criminosa utilizava criptomoedas, influenciadores digitais e empresas de fachada para lavar dinheiro ilícito. O Paraná é um dos alvos centrais da ofensiva, que cumpre mandados em nove estados e no DF e expõe a nova fronteira financeira do crime organizado.

A Polícia Federal (PF), com o apoio tático da Polícia Militar de São Paulo, deflagrou nesta quarta-feira (15) a Operação Narco Fluxo, uma megaofensiva destinada a desarticular uma sofisticada rede de lavagem de capitais em escala bilionária.

A organização criminosa é suspeita de movimentar mais de R$ 1,6 bilhão de forma ilícita, valendo-se de uma arquitetura financeira que unia o submundo do crime ao topo do entretenimento digital no Brasil.

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Para desmantelar a operação, mais de 200 policiais federais foram mobilizados no cumprimento de 45 mandados de busca e apreensão e 39 mandados de prisão temporária. As ordens judiciais, expedidas pela 5ª Vara Federal em Santos (SP), atingiram endereços no Distrito Federal e em oito estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Goiás e o Paraná.

A Justiça Federal também deferiu um amplo pacote de bloqueio patrimonial, determinando o sequestro de bens de luxo, contas bancárias e a imposição de restrições societárias contra empresas utilizadas como fachada. O objetivo é asfixiar financeiramente a quadrilha e garantir a recuperação dos ativos.

A instrumentalização das redes: O caso “Choquei”

O aspecto mais revelador da Operação Narco Fluxo é a exposição de uma nova fronteira para o crime organizado: o uso do ecossistema de influenciadores digitais como escudo e motor de lavagem de dinheiro.

Entre os alvos que tiveram a prisão temporária decretada está o influenciador Raphael Sousa Oliveira, criador e dono da página “Choquei”, uma das maiores contas de entretenimento e fofocas do país.

O histórico da página já vinha marcado por polêmicas severas — o episódio mais trágico ocorreu no final de 2023, quando a disseminação de fake news pela página culminou no suicídio da jovem Jéssica Canedo, levantando um debate nacional sobre a regulação das redes.

Agora, a investigação desloca a Choquei do campo ético para a esfera criminal. Segundo a Polícia Federal, Raphael Sousa é suspeito de atuar como um “operador de mídia” da organização criminosa.

A hipótese dos investigadores é de que o alcance gigantesco da página teria sido loteado para interesses escusos: impulsionar conteúdos favoráveis ao grupo, fazer controle de danos e gerenciamento de crise para criminosos, e, principalmente, promover plataformas que funcionavam como lavanderias de dinheiro.

Rifas, apostas e o núcleo do Funk

Para justificar a origem de montanhas de dinheiro sujo, o grupo precisava de atividades de fachada que envolvessem alto fluxo de caixa. É nesse ponto que a investigação esbarra em plataformas de apostas não regulamentadas e nas chamadas “rifas digitais”.

Para dar credibilidade a esses esquemas e atrair o dinheiro de cidadãos comuns (misturando recursos limpos e sujos), a quadrilha teria cooptado artistas de grande apelo popular. Isso levou à prisão de dois dos maiores nomes do funk nacional na atualidade: MC Poze do Rodo (detido em sua residência no Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro) e MC Ryan SP (preso em Bertioga, no litoral de São Paulo).

A PF apura se os artistas atuavam de forma consciente na engrenagem financeira ou se eram beneficiários do esquema que usava sua imagem para chancelar a circulação de milhões de reais sob o pretexto de sorteios e apostas online.

Paraná na rota do “Narco Fluxo” e a rede de laranjas

As investigações revelaram que o esquema não era feito apenas de publicações na internet. A espinha dorsal da lavagem contava com três métodos robustos para dificultar o rastreamento das autoridades:

  • Criptoativos: Uso pesado de moedas digitais para transferências transfronteiriças instantâneas.
  • Empresas de Fachada: Uma teia de CNPJs criados apenas para emitir notas fiscais e esquentar operações comerciais que nunca existiram.
  • Transporte em Espécie: A velha tática de transportar malas e pacotes de dinheiro vivo para pagamentos não rastreáveis.

O Paraná foi classificado pela PF como um dos alvos centrais da ofensiva. Durante as diligências em solo paranaense, agentes apreenderam veículos de altíssimo padrão, cofres com dinheiro em espécie, além de computadores e smartphones.

A lista de 39 alvos de prisão revela uma teia complexa que inclui desde os chamados “laranjas” até operadores financeiros estrangeiros, como Sun Chunyang, Xizhangpeng Hao e Jiawei Lin, indicando conexões do grupo com a lavagem de dinheiro no exterior.

O que dizem as defesas

Com a deflagração da fase ostensiva, os representantes legais dos envolvidos começaram a se posicionar:

  • MC Ryan SP: Em nota, a defesa afirmou que não teve acesso ao inquérito sigiloso, mas ressaltou a “absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras”. Segundo os advogados, todos os valores do cantor possuem origem comprovada e pagamento rigoroso de impostos, confiando que a verdade será demonstrada rapidamente.

  • MC Poze do Rodo: A equipe jurídica declarou desconhecer o teor do mandado de prisão. Pontuou que, “com acesso aos mesmos, se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário”.

  • Raphael Sousa (Choquei): Até o fechamento desta reportagem, a defesa do influenciador não havia emitido comunicado oficial.

Os alvos poderão responder judicialmente pelos crimes de associação criminosa, evasão de divisas e lavagem de capitais. O material apreendido nos 45 endereços passará agora por perícia, e a Polícia Federal não descarta que o cruzamento de dados revele uma estrutura ainda maior, abrindo caminho para novas fases da operação.

Criptomoedas, rifas e influenciadores: a anatomia do esquema de R$ 1,6 bilhão desarticulado pela PF no Paraná e mais 8 estados
(Foto: Divulgação PF)

Com informações de Agência de Notícias da Polícia Federal


Alfredo R. Martins Jr. é jornalista e a voz principal do Jornal O Paranaense. Formado em Comunicação Social com especializações em Marketing e Gestão de Comunicação, possui mais de 17 anos de experiência na análise do cenário paranaense. Sua missão é traduzir a complexidade da política, economia e cultura do estado em informação clara, acessível e relevante para o leitor.
Alfredo R. Martins Jr.
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